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Roberto Fonseca

O prefeito de Canoinhas bateu à porta de Otto Loeffler com um pedido incomum: queria uma cerveja para homenagear João Ribeiro de Barros que, a bordo do hidroavião Jahú, acabara de se tornar o primeiro habitante da América a fazer a travessia do Oceano Atlântico, saindo de Gênova e fazendo sua parada final em Santo Amaro (hoje parte de São Paulo), a algumas centenas de quilômetros da pequena cidade do Noroeste de Santa Catarina. Para atender ao pedido, Loeffler rebatizou uma de suas receitas, a Cristal, como Jahú. O ano era 1927: o mundo havia recém-saído de uma guerra mundial sem saber que caminhava para outra, Joseph Ratzinger nascia na região cervejeira da Baviera, na Alemanha, e Washington Luís havia assumido há poucos meses a Presidência do Brasil. Nessa linha do tempo, porém, um fato não poderia passar despercebido: o filho de Otto, Rupprecht, de dez anos, já ajudava no dia-a-dia da cervejaria.

E ste detalhe merece nota porque hoje, mais de 20 presidentes, 18 Copas do Mundo e seis papas – sucedidos pelo próprio Ratzinger, ou Bento 16 – depois, Rupprecht, agora mais conhecido como ‘seu’ Loeffler, continua exatamente no mesmo lugar. Aos 91 anos, o mestre-cervejeiro ainda comanda a Cervejaria Canoinhense que herdou do pai. A pequena produção artesanal catarinense é, muito provavelmente, a mais antiga ainda em atividade no País. Embora a família Loeffler tenha se instalado no local em 1924, vinda de Corupá (SC), segundo registros históricos já se fabricava cerveja no local desde 1908, ou exatamente há um século.

Resista a eventuais calafrios e continue percorrendo a fábrica, agora para conhecer as etapas da produção, que no encontra similar no Brasil e estimada em 1.500 garrafas mensais.

Quem passa pelo ‘biergarten’ na parte externa do edifício de tijolos aparentes e atravessa a porta de vidro da entrada deve estar preparado. Nada ali é imitação: os macacos empoleirados em tocos de madeira na parede são – ou foram – de verdade, e revelam um dos antigos hobbies de Loeffler: a caça. Os animais foram “eternizados” em poses jocosas, como que fumando, rindo ou roubando o colega. O mesmo ocorre com as aves do outro lado do salão. A surpresa maior, porém, é quando se chega perto da geladeira: em potes de vidro cheios de formol, cobras, também caçadas pelo cervejeiro, e – pasme – um porco de duas cabeças. Resista a eventuais calafrios e continue percorrendo a fábrica, agora para conhecer as etapas da produção, que não encontra similar no Brasil e é estimada em 1.500 garrafas mensais.




A cerveja nasce em uma tina de cobre, aquecida por lenha, descansa em tanques de aço inox – o “resfriamento natural” é propagandeado nos rótulos -, protegida por uma tela, e depois matura em barris de carvalho, que, segundo Loeffler, vieram da Alemanha há cerca de um século. Todas as cervejas produzidas ali são de alta fermentação e, diz o cervejeiro, seguem a Reinheitsgebot, ou Lei de Pureza Alemã. A Jahú, da homenagem ao hidroavião, fez sucesso em 2006 no aniversário de Jaú, cidade do interior paulista que inspirou o nome da aeronave. Um comerciante local levou 32 caixas da bebida para a festa. Além dela, há mais três receitas. A Nó de Pinho, que se chamava Sport, mas foi rebatizada, segundo seu Loeffler, por “inspiração de visitantes”. “Eles estranharam a cor escura e perguntaram se ela havia sido cozida com nós de pinho”, diverte-se o cervejeiro. A história da receita guarda mais uma curiosidade: segundo o historiador e chefe de gabinete da prefeitura de Canoinhas, Fernando Tokarski, outra cervejaria da cidade, de José Scheller – que encerrou as atividades nos anos 60 – chegou a criar uma receita batizada de “Papo de Imbuia”, usando também um nome derivado da madeira, para rivalizar com a Nó de Pinho. A Mocinha, como diz o nome, é uma cerveja clara, mais suave, feita com a idéia de atender o público feminino. Por fim, há ainda a Malzbier, bastante adocicada. Todas têm em torno de 3% de teor alcoólico, marca consideravelmente menor que as lagers industriais de hoje em dia, que giram entre 4% e 5%. E cada uma tem a tampinha da garrafa pintada de uma cor.

A Nó de Pinho é a mais interessante do grupo: com cor castanho-escura e brilho rubi, possui notas de malte torrado, acéticas e de madeira, que se refletem no sabor. É bom estar preparado: uma das características das cervejas da Canoinhense é, justamente, ter notas ácidas e de madeira, reflexo do processo de produção. A “personalidade” da cerveja divide degustadores: alguns a acham “intragável”, pelo azedo/ácido marcantes da bebida. Outros a veneram como produção histórica e única. O cervejeiro conta que o fermento utilizado no processo ainda é derivado do que seu pai trouxe da Alemanha, no final do século 19.

Cerveja à mão, é hora de conversar com o seu Loeffler, invariavelmente de gravata e suspensórios. Depois das histórias da família, de caça e viagens, só falta a foto. Mas atenção: ele só aceita posar com o caneco em punho. A fama na pequena Canoinhas já rendeu ao cervejeiro um título de cidadão honorário nos anos 80. Hoje, além da erva-mate, a Canoinhense é a principal atração da cidade – havia o Bar das Placas, todo decorado com chapas de automóveis de várias cidades e países, mas o estabelecimento se mudou para o litoral e, depois, fechou.

O futuro da Canoinhense é tema que deixa moradores, visitantes e fãs da cerveja ressabiados. Ninguém gosta muito de falar sobre o que ocorrerá quando seu Loeffler se encontrar com São Gambrinus e outros grandes cervejeiros. Se depender dele, porém, esse momento ainda vai demorar. Loeffler não cansa de repetir sobre quando se consultou com o médico. “Ele viu meus exames e perguntou quanta cerveja eu tomava por dia. Quando respondi um litro, disse-me que deveria aumentar para dois”, brinca.


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