
Marcelo Carneiro
Pois é, já faz um ano que morreu Michael Jackson – o mais brilhante crítico e escritor cervejeiro de todos os tempos e principal responsável pelo aumento progressivo do interesse em pequenas cervejarias e cultura cervejeira nos dois lados do Atlântico.
A quantidade e a persistência das mensagens de pesar surgidas após sua morte testemunham
de alguma forma a grandeza deste homem culto e generoso. Lembro-me em particular do depoimento de uma jornalista americana que se perguntava como um escritor
tão brilhante podia sujeitar toda sua vida a uma bebida tão modesta como a cerveja. De fato, para além da crônica gastronômica, Michael
foi também um fino observador e crítico da destruição de certos meios tradicionais de produção, e o mais impressionante é que ele fazia isso não através de ácidas críticas, mas, pelo contrário, seu estilo procurava as qualidades
escondidas em quase toda cerveja. Certa vez ele escreveu que se julgasse uma cerveja exclusivamente pelos seus defeitos nunca tomaria a melhor cerveja, e sim a menos pior.
Conheci Michael em Ribeirão Preto em 1997, o Beer Hunter como gostava de ser chamado, talvez muito cedo veio procurar novidades cervejeiras por estas bandas. Fiz o “Tour de Force“ habitual da época e levei-o a visitar uma destilaria de cachaça, a Cervejaria Colorado
e o Pingüim. Era dia sete de setembro e começava a se formar naquela praça em frente ao restaurante um burburinho, a criançada chegava barulhenta de todos os lados – ia começar em breve o desfile do dia da Independência e elas iam desfilar…
Não sei o porquê, mas estas coisas me comovem – a visão daqueles brasileirinhos todos felizes, orgulhosos e arrumadinhos de alguma forma me tocou. Quis falar sobre isto com o Michael, mas ele já estava acotovelado sobre uma cadeira fotografando tudo – acho que a imagem teve sobre ele o mesmo efeito. Trocamos algumas idéias genéricas sobre a diversidade étnica do Brasil e Michael ainda mencionou a origem exótica de sua companheira
em Londres.
Guardo na memória esta impressão do maior crítico de cervejas do mundo, um homem sensível e inteligente capaz de trocar um papo sério entre adultos para tirar fotos de crianças brincando na praça. Talvez por isso sua perda faça tanta falta ao mundo cervejeiro.