A lei que restringe o consumo de álcool para quem dirige tem dado o que falar nos últimos meses. A tolerância é zero. Desde que começou a ser aplicada – a partir do dia 20 de junho – a lei já multou muitos motoristas e levou muitos deles às delegacias. Além disso, a popularmente (e erroneamente) conhecida “Lei Seca” causou espanto na população com a famosa questão do bombom de licor.
O professor do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba e Doutor em História Moderna, João Azevedo Fernandes, diz que cada sociedade se relaciona de forma diferente com as bebidas alcoólicas e com a prática da embriaguez. Ele aponta que são as diferenças culturais e históricas que permitem que seja fácil para um menor de idade comprar bebida alcólica no Brasil, o que não ocorre com a mesma facilidade nos EUA e no Canadá.
Ao pontuar aspectos culturais e históricos, o professor diz que o Brasil é um grande produtor de bebida alcoólica, e, conseqüentemente, um grande consumidor. Desta maneira, as bebidas estão firmemente ligadas à cultura brasileira. “A cachacinha e a cervejinha – diminutivos carinhosos – são parte fundamental da identidade brasileira”. Segundo Fernandes, existem muitos aspectos culturais envolvidos no consumo de bebida. “Um dos que muito me intriga, é a possibilidade de, através do quê se bebe e de como se bebe, delimitar espaços sociais”.
Ele explica que no Brasil há uma distinção entre bebidas de “elite” e bebidas “populares”. No caso da cerveja e da cachaça, ambas são consideradas bebidas populares. “A diferença é que a cerveja é uma bebida para fora, isto é, com a qual se celebra com amigos”, diz Fernandes. O professor considera que as modificações da sociedade também se refletem na visão sobre as bebidas. Ele cita a popularização do vinho e o aumento de qualidade e preço da cachaça.
A médica fisiatra e coordenadora do laboratório de estudos do movimento do Hospital das Clínicas, Julia Greve, diz que beber com responsabilidade é aproveitar o que a bebida tem de bom, mas com moderação. Ela diz que é preciso melhorar a educação e que isto deve ser uma ação continuada. “Grande parte dos brasileiros não sabem o efeito do álcool. Muitas pessoas abusam do comportamento”. Dra. Julia explica que, ainda que o álcool seja uma droga psicoativa, quase 80% da população pode beber sem ter problemas de alcoolismo. “Por este motivo o álcool é considerado uma droga lícita”.
Quanto à aplicação da lei no Brasil, o professor Fernandes diz que a regulamentação anterior já era suficientemente severa, mas que nunca foi aplicada e tampouco fiscalizada. “É típico do Brasil. Em vez de mudar a realidade, muda-se a lei”. Ele diz que em relação à eficiência da lei, já é possível observar uma diminuição no número de acidentes, mas que isso depende de marcante fiscalização. Dra. Julia diz que espera que haja uma real mudança de comportamento e cultura. “A geração atual pode passar esse hábito para as gerações futuras. E isso se torna um hábito”.
Fernandes diz que é necessária fiscalização, mas que o mais importante é a mudança de mentalidade. Dra. Julia acha que este é um bom momento para refletir o direito individual e repensar o coletivo. O professor avalia que o fato de não beber não vai tornar os motoristas melhores e nem consertar as estradas. Ele aposta em controles severos e fiscalizáveis – e não em leis utópicas – como a melhor maneira de lidar com os problemas sociais do álcool. “A sociedade tem que diferenciar estes problemas do prazer de consumir bebidas alcoólicas de forma responsável”.
História antiga
O histórico alcoólico do Brasil vem desde o período colonial, diz Fernandes. Quando chegaram, os portugueses encontraram os índios tupinambás que costumavam beber cauim – uma espécie de cerveja feita de mandioca ou milho – e vinhos feitos com diversas frutas, principalmente o caju. Após o desaparecimento de muitos grupos indígenas, essa tradição quase se acabou. O professor revela que muitos documentos do período colonial apontam o brasileiro como um povo extremamente moderado no beber, “para grande espanto dos europeus que visitavam o Brasil”, conta. O professor remete este fato à dificuldade do vinho português de chegar ao Brasil e também ao preconceito social que existia quanto à cachaça, já que a bebida era consumida principalmente por escravos, índios e homens livres pobres.
Na Austrália
A Austrália, através do National Health and Medical Research Council (NH&MRC), determina 12 guias de consumo de álcool baseados em alguns padrões tais como idade, sexo e estado de saúde. Esses novos padrões foram estabelecidos
em 1999 e declaram que, em níveis baixos ou moderados, bebida alcoólica pode causar benefícios a saúde.
As mulheres possuem maior assimilação ao álcool do que os homens. Desta maneira, de acordo com os padrões estabelecidos, o homem
pode beber até 28 unidades de bebida por semana divididas em cinco ou seis dias e a mulher 14 unidades divididas em cinco ou seis dias. Esses guias têm o objetivo de educar para o consumo já que não proíbe o uso de bebida alcoólica, mas sim, esclarecem a população quanto à quantidade de álcool permitida.
Já que esses novos guias refletem o aumento do conhecimento sobre os prejuízos e benefícios que o álcool pode causar, a Austrália entende que os padrões precisam ser avaliados constantemente.
Na Inglaterra
A Inglaterra também trabalha com padrões de medida – chamados UK units – e que determinam a quantidade de álcool permitida para consumo. Eles consideram idade e sexo para definir tais padrões. Por exemplo, um homem pode beber até 3 UK units/dia . Já a quantidade permitida para as mulheres não ultrapassa 2 UK units/dia . Para saber quantas unidades estão contidas em determinado recipiente é preciso multiplicar a quantidade de bebida em mililitros pela porcentagem de álcool por volume e dividir este número por mil. Desta forma é possível identificar qual a quantidade real de álcool em cada garrafa ou copo. Ainda segundo esses padrões, apenas 10 minutos após beber, 50% do álcool ingerido está no sistema sanguíneo.