
por Maíra Porto
E
m busca de mostrar as diferentes opções para se degustar uma cerveja especial, a equipe da revista Beer Life foi até a cidade do Rio de Janeiro a fim de ‘descobrir’ os bares que trabalham com elas. A viagem à capital fluminense foi debaixo de chuva, assim como grande parte do tempo em que estivemos na cidade maravilhosa. Mas maravilhosa mesmo foi a diversidade encontrada nos bares que visitamos.
À procura de lugares para se degustar uma boa cerveja tivemos uma grande surpresa: maior que a diversidade entre a imensa quantidade de cervejas encontradas foi a peculiaridade de cada um dos bares que visitamos.
Boteco Vip
O Boteco Vip, diferente do que o nome indica, não é exatamente um boteco, no real sentido da palavra. Bar e restaurante, o Boteco Vip tem apenas sete meses e já conta com um estilo próprio. A casa da época do império, decorada com artesanatos da cidade de Tiradentes/MG, conta com uma exposição de quadros e MPB como som ambiente, valorizando tudo o que é nacional. E não poderia ser diferente com as cervejas! Elas, que chegaram à casa apenas como um ‘teste’, mostraram que também têm motivos para ser valorizadas.
Artesanais, as cervejas e os chopes servidos são legítimos representantes do Brasil. As duas primeiras cervejas vendidas na casa indicaram aos proprietários, Luciane Bonelli e César Mattos, que vale a pena investir no mercado das cervejas artesanais. Os dois rótulos foram então multiplicados e hoje o Boteco Vip já apresenta uma carta de cervejas. Modesta, com apenas 15 rótulos, mas em amplo crescimento. “Procuramos ter ao menos um exemplar de cada tipo. Mas os clientes vão sugerir outras. Vamos experimentar e aumentar a carta aos poucos”, informa Luciane.
Outro fator interessante percebido por eles é que, quando tinham apenas dois rótulos de cerveja, a venda de vinho era bem significativa. Conforme a diversidade de cervejas foi aumentando, o consumo de vinho diminuiu.
A casa, além de valorizar a cultura brasileira através das cervejas, da decoração e da música, também aposta na culinária nacional. Até mesmo os pratos estrangeiros servidos no Boteco Vip têm um toque brasileiro no sabor, devido aos condimentos utilizados. O fato de ser um restaurante e ter um chefe de cozinha sempre presente facilita a inserção de outra característica própria, a harmonização dos pratos com a cerveja.
Todos os pratos servidos no restaurante podem ser harmonizados com cerveja. A equipe da Beer Life degustou uma linguiça feita no mel juntamente com a cerveja Dado Bier – Black Ale. Fica a sugestão!
Herre Brauer
Quase um dos pioneiros na cidade a trabalhar com cervejas especiais, o Herr Brauer tem aproximadamente 80 rótulos. E tudo começou em um balcão de bar! Fabiano Velho, consultor da casa, dava treinamentos em bares e restaurantes e percebia a necessidade de conhecimento e informação das pessoas que os frequentavam. Começou então a dar cursos de degustação e ‘workchopes’. O proprietário do Herr Brauer fez um desses cursos e convidou Fabiano para ser seu sócio em um negócio que envolvesse cervejas especiais. Surgiu então o Herr Brauer.
Hoje, quase dois anos depois, a casa, que começou com uma carta audaciosa de 62 rótulos, está aprimorando sua variedade de cervejas e a qualidade dos serviços. Todas as cervejas comercializadas são escolhidas com muito cuidado de acordo com o interesse do público, as novidades e as estações do ano, assim como a distribuição das mesmas. “Isso é essencial, para não acontecer de o cliente vir até aqui, fazer o pedido e não termos a cerveja. Somos extremamente cuidadosos com isso, então algumas cervejas não entram aqui devido a falhas na distribuição. Trabalhamos com quem realmente consegue entregar bem”, conta Fabiano.
Além das cervejas especiais, eles também trabalham com o chope Brahma. Segundo Fabiano, como estavam iniciando um negócio em um ramo que também estava começando, optaram pelo tradicional chope Brahma. “Nosso foco é que a pessoa tenha a possibilidade de chegar aqui e consumir algo que ela já conheça. Muitas pessoas passam na porta, veem o chope Brahma e resolvem entrar. É apenas um passo para o universo das cervejas especiais disponíveis. E a partir daí começamos a brincar. Vamos apresentando uma coisa ou outra, algo que tenha um paladar mais semelhante ao que a pessoa já conhece”, diz.

Mas a principal peculiaridade do Herr Brauer é seu público – acentuadamente feminino. “Um fenômeno interessante”, denomina o consultor da casa. Talvez porque a carta de cervejas tenha vários rótulos voltados a elas, rótulos que não são encontrados com facilidade. Há ainda uma história curiosa: “um dia cheguei aqui e, tirando duas mesas em que havia casais, todas as outras mesas eram de mulheres. São 44 lugares. Claro que havia algumas cadeiras vazias, mas já vínhamos percebendo essa frequência e, nesse dia, ficou bem evidente”, conta.
O Herr Brauer trabalha ainda com alguns pratos que levam como ingrediente a cerveja. O arroz na cerveja, o arroz dubbel ou até mesmo um filé aperitivo ao molho italiano com cerveja, embora assustem à primeira vista, são os mais pedidos. Já que a aceitação é boa, a pretensão é de aumentar o cardápio desse tipo de prato.
Gattopardo
Com o objetivo de resgatar os famosos e lendários bares genuinamente cariocas, no mês passado foi inaugurado o Gattopardo. Marca que já foi pizzaria e restaurante, hoje é um bar com produção própria de chope.
Localizado no Leblon, o bar busca ser “um ponto de encontro para comer, beber e celebrar a vida. Um lugar para se sentir tão bem quanto em casa, preservando a alma e o espírito que domina o carioca”, informa Orlando Dinis, proprietário da casa.
Este espírito genuinamente carioca, segundo Orlando, é visível na casa, que busca através das cores tornar o ambiente informal e alegre. O bar e restaurante possui mesinhas na calçada e chopes que levam o nome Bossa em homenagem à Bossa Nova. Isto porque a Bossa Nova nasceu no Rio de Janeiro e “está na alma do carioca, assim como no sabor, no aroma e na alma da cerveja e do Gattopardo”, explica Orlando.
Além disso, este bar tipicamente carioca busca resgatar e valorizar as coisas boas do Rio, tendo sido inaugurado no dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da cidade maravilhosa.
Produzido artesanalmente pela renomada mestre cervejeira Kátia Jorge, os chopes da casa são fabricados com produtos puros. No momento existem apenas três versões: o Larger Bossa, o Ale Bossa e o Strong Bossa, que estão tendo uma ótima aceitação, segundo Orlando. E o proprietário promete que já está estudando outras opções.
Orlando resolveu montar o Gattopardo devido a suas viagens por diversos países. “Nas viagens conheci também as cervejas mundo afora; os sabores e aromas. Então desde 2006, venho buscando tornar realidade a vontade de produzir uma cerveja artesanal, para um público que cresce a cada dia e que quer experimentar também novos sabores e aromas”, conta. Esta é a proposta do ‘Gatto’, ter uma cerveja/chopp artesanal, cuidadosamente elaboradas, com maltes puros.
Quem for ao Gattopardo vai encontrar a ‘marca’ que está na memória das pessoas, “associada à qualidade, descontração e informalidade. Características do antigo Gattopardo e que se mantém no novo bar”, conta Orlando.
Aconchego Carioca
Pioneiro no mercado de cervejas especiais no Rio de Janeiro, o Aconchego Carioca, é exatamente o que o próprio nome já diz: um aconchego. Lá, você sente como se estivesse em casa com seus amigos, tomando uma boa cerveja e dando gargalhadas da vida. Mas, gargalhadas como a de Kátia Lopes, uma das proprietárias, você não escuta em nenhum outro lugar. A alegria dessa nordestina é contagiante e faz com que o ambiente se torne extremamente agradável. “Um lugar para se tomar uma cerveja honesta, comer uma comida honesta, por um preço honesto”, segundo definição da própria Kátia.
Um boteco pequenino localizado em um bairro de passagem (Tijuca), numa ruazinha deserta, decorado com artigos nordestinos e com cervejas especiais. Você consegue imaginar essa mistura? Pois esse é o Aconchego Carioca!
A casa, que já existe há sete anos, começou a trabalhar com cervejas especiais por sugestão dos clientes. “Eu tinha dois clientes que vinham aqui sempre e toda vez que viajavam traziam cervejas diferentes para eu provar, porque sabiam que eu curtia cerveja”, confidencia Kátia. Esses mesmos clientes a avisavam toda vez que alguma cerveja importada chegava ao Brasil, informando o local onde poderia comprá-las. “Cada vez que eles me indicavam uma cerveja e eu a comprava, eles traziam mais e mais amigos. Até o dia em que o pessoal da Acerva Carioca (Associação dos Cervejeiros Artesanais Cariocas) descobriu o bar e começou a divulgar”, diz. O Aconchego é um bom exemplo do que é a divulgação boca a boca.
Com o tempo, a carta de cervejas, que começou apenas com a Emeri e a Eisenbahn, tinha 120 rótulos, sendo a maior do Rio. Os clientes aumentaram na mesma proporção. Então, nasceu um dos maiores desejos das proprietárias: um pouquinho mais de espaço para colocar mais duas geladeiras e mais cerveja. “Não quero mudar nada no Aconchego. A idéia é mantê-lo como está: com seis cervejinhas de cada gelando. O barato aqui é o tamanho”, revela. É esse tamanho que permite que o bar tenha o clima de ‘aconchego’, o clima que pode ser percebido nas histórias contadas pelas proprietárias, Katita e Tia Pink (Rosa Ledo), como são conhecidas pelos clientes.
“Uma vez chegou um homem sozinho. Sentei com ele e comecei a conversar. Era jornalista e eu nem sabia. O bar estava meio vazio, umas quatro mesas. Quando percebemos estávamos todos conversando; interagindo entre as mesas. Ficou um grande barato. O cara saiu daqui encantado, falando que nunca esteve em um lugar tão bacana, com gente tão legal e que falasse a mesma língua que ele”, conta Kátia.
“Esse espírito de amizade, de união, esse espírito aconchegante é que eu quero levar para o outro lugar, o que é a parte mais difícil”, revela. “Como a gente não tem pressa, vamos fazer aos poucos. Mas o que queremos mesmo é manter uma carta de cervejas maior e melhor”. (Confira uma das maravilhas gastronômicas do bar na seção aperitivo).
Mistura Clássica
Um dos mais novos bares da cidade maravilhosa, o Mistura Clássica oferece chopes da cervejaria, além das cervejas artesanais. Localizado próximo à praia da Barra da Tijuca, ali você pode degustar um ‘chopinho’ assim que sair da praia ou mesmo na ida. Com pouco tempo de funcionamento, o bar já possui peculiaridades próprias. (Confira mais na seção É novo!).
Grão Fino Barfeteria
Barfeteria: uma mistura de bar e cafeteria. Mas, espera aí, eles vendem café e cerveja no mesmo local? Isso mesmo. Meio inusitada essa mistura, mas está dando certo! O proprietário já tinha uma cafeteria, mas sentia falta de algo que movimentasse seu estabelecimento durante o período noturno também. Resolveu então apostar nas cervejas, criando a Grão Fino Barfeteria. Mas você pode chegar lá a qualquer horário e pedir um café ou uma cerveja.
“No fundo, o café e a cerveja têm a mesma motivação: a reunião social. Vamos tomar um cafezinho? Vamos tomar uma cerveja? Esse foi o link entre os universos do café e da cerveja para construir a Barfeteria. “O objetivo era construir um lugar onde as pessoas se juntassem para se divertir”, informa o gerente da casa Alexandre Batista.
A cafeteria trabalhava apenas com cafés gourmet. Quando resolveu unir a cerveja ao negócio, o proprietário procurou cervejas que seguissem a mesma linha e encontrou as artesanais. Além disso, seu foco são as cervejas artesanais brasileiras, pois “as pessoas têm facilidade de valorizar o que é estrangeiro e nós ‘compramos a briga’ de valorizar o que é nosso. Temos os melhores cafés do mundo e cervejas premiadas no mundo todo”, diz Alexandre.
A mistura de café com cerveja é uma das peculiaridades da casa. Porém, outra novidade, talvez tão inusitada quanto e que está fazendo sucesso entre os cariocas é o rodízio de chope! Sabe o tradicional rodízio de carne ou pizza, em que você pede ao garçom o tipo de carne/pizza que quer, quantas vezes desejar? O rodízio de chope segue o mesmo esquema. Você senta no bar, escolhe o chope e bebe o quanto quiser.
O chope da Barfeteria também é artesanal. Eles comercializam chope tipo Pilsen, amber e escuro. Os três tipos fazem parte do rodízio. A idéia do rodízio é difundir a existência de um universo de chopes que o brasileiro não conhece. “As pessoas vêm aqui e provam outros tipos de chope e às vezes passam a preferir os demais ao pilsen. O crescimento do movimento mostra que o pessoal está aprovando o chope e o rodízio”, informa Alexandre.
Quer uma prova de que o rodízio está difundindo outros sabores? Tinha uma mesa no bar quando chegamos lá. Segundo Alexandre, eles chegaram e perguntaram sobre o chope amber e resolveram provar. Quando foram embora, haviam sido consumidos 43 chopes – 35 amber e oito pilsen.
Beer Taste
Excentricidade é a palavra chave. “Você conhece um bar que não abre domingo e no qual o dia mais fraco é sábado?”, me perguntou Leonardo Oliveira, proprietário do Beer Taste. Eu não conhecia e você leitor também não deve conhecer! Mas não vá pensando “ih, esse bar é fraco”, muito pelo contrário; porém, o forte do bar é de segunda a sexta-feira.
Ese, além do bar ser movimentado durante a semana, você ‘encontrá-lo’ enquanto estiver caminhando em um shopping? E se, nesse mesmo bar tiver uma enorme variedade de cervejas especiais e estiver tocando um blues? Não, não é sonho. Esse é o Beer Taste!
Situado em um shopping na Barra da Tijuca próximo a uma área empresarial, o Beer Taste tem muito movimento durante a semana. Nascido a partir de um bar particular do proprietário, ele vem crescendo. E muito!
A paixão por cervejas fez com que Leonardo montasse um bar dentro de sua casa para os amigos. A quantidade de cervejas foi crescendo e não havia mais espaço para elas no apartamento. Ele não pensou duas vezes, alugou um espaço para fazer o estoque e começou a realizar degustações para os amigos e os amigos dos amigos. O sucesso era tão grande que os clientes incentivaram Leonardo a montar um bar ‘de verdade’, surgindo então o Beer Taste, no local em que hoje se encontra.
Há quase um ano no shopping, o bar comercializa em torno de 70 rótulos de cerveja. A idéia do bar é de que o cliente se sinta à vontade. Como o cardápio ainda não contém todas as cervejas vendidas na casa, o melhor a fazer é olhar nas prateleiras e nas geladeiras. “Elas são a nossa verdadeira vitrine! Falo para o pessoal que, qualquer coisa, é só olhar. Às vezes, fica até legal, mais informal. O cara levanta, olha na geladeira. É bom também porque o pessoal gosta de ver o rótulo, de pegar. Depois até olham o cardápio para entender”, conta Leonardo.
Um dos projetos do Beer Taste é voltar a realizar as degustações que eram feitas no ‘estoque’ de cervejas. “O mezanino é exatamente para isso, para fazer degustações de estilos ou de novas cervejas que chegarem ao mercado”, conta.
A paixão do proprietário pelas cervejas é tão grande que ele tem as preferidas tatuadas no corpo. Agora, imagine ser atendido e receber explicações de um apaixonado. É isso que Leonardo costuma fazer. “Fico direto dentro da loja. Eu falo muito, então é normal eu sentar à mesa e ficar conversando com as pessoas. Vocês chegaram em um dia totalmente atípico. Normalmente, a loja está cheia e eu conheço todo mundo. Hoje, a loja está vazia e eu não conheço aquele pessoal”, conta. É por isso que Leonardo não tem vontade de aumentar a loja: “aí não vai ser fácil dar atenção a todos”, revela.
Ernesto
Localizado no coração da cidade maravilhosa desde 1935, este restaurante familiar foi a quinta casa de chope Brahma no Rio e há seis meses resolveu inovar: começaram a comercializar cervejas especiais.
O restaurante tradicional, gerenciado pela quinta geração da família Mehler, serve comida alemã e apostou nas cervejas alemãs Paulaner e Erdinger. O sucesso foi tanto que hoje a casa já apresenta uma carta de cervejas com mais de 70 rótulos e a previsão de aumentar ainda mais.
A aceitação pelos clientes foi fácil. “Os clientes adoraram a novidade, principalmente porque cada cerveja tem seu respectivo copo. Mas com os garçons foi mais difícil. Eles já tinham preguiça de perguntar se os clientes desejavam chope claro ou escuro, imagine ter de compreender qual a cerveja pedida, seu respectivo copo e a maneira de servir”, revela Flávio Mehler.
Mas hoje eles já estão acostumados, afinal, a procura é muito grande. “Uma vez chegou um casal querendo provar a Eisenbahn, mostrei a carta para eles.
Consumiram todas as 12 opções, então eu ofereci o BierLikör da Eisenbahn, garrafa de 500 ml com teor alcoólico de 30,47%. Beberam 2/3 da garrafa e saíram felizes pela Lapa, certamente sem dirigir, com o 1/3 que sobrou na mão”, conta Flávio.
Histórias de bar, quem não as tem? E tem outra bem interessante, diz Flávio, “Uma vez chegaram dois casais e ofereci a eles a carta de cervejas especiais. Fui perguntado por um dos senhores se havia alguma cerveja sem álcool, então ofereci a Erdinger Sport com teor alcoólico de 0,39%. Os dois senhores ficaram durante toda a noite bebendo apenas a Erdinger Sport e as respectivas esposas bebendo suco de frutas.
Quando pediram a ‘saideira’, brincando, ofereci a Eggenberg Samichlaus, a Lager mais forte do mundo, com teor alcoólico de 14,0%. Minha surpresa foi a resposta das esposas: “Essa, deixa para nós bebermos”.
Depois de seis meses trabalhando com cervejas especiais, analisando a clientela e presenciando diversas histórias interessantes, Flávio diz que no Ernesto existem dois tipos de clientes: os que entendem de cerveja e o curioso, que prova todas.