
por Christian Villarroel
Quando alguém vai ao Chile, pensa em esquiar, ver vulcões, praticar o espanhol (ou portunhol) e... tomar vinho! Nada mais natural. Afinal, o país de muitos seguidores de Baco é um dos principais produtores da bebida no mundo. No entanto, nos últimos anos, o vinho vem perdendo terreno para a bebida de Gambrinus.
Dados de 2007 apontam que o consumo de cerveja no país foi de 34,4 litros anuais por habitante (um aumento de 36% nos últimos 5 anos) contra 13 litros de vinho. Estes números levaram o Chile ao 7º lugar entre os países da América Latina no que se refere ao consumo de cerveja. Outro dado importante é a elevação das importações do produto: 46% nos últimos anos. O número de marcas disponíveis no mercado também cresceu: 116 em 2004 contra 130 em 2007.
Parece que o chileno, assim como os consumidores de outros países da região, está aprendendo a tomar mais cerveja. E durante todo o ano, não somente no verão. Vale dizer que este é um grande avanço, já que as estações do ano são bem marcadas neste país, o que acarreta em um consumo sazonal do líquido dourado. O cervejeiro e dono da Edelstoff, Mauricio Villagrán, acrescenta também que boa parte do público já sabe diferenciar os estilos e já tem os seus preferidos.
E, como ocorre no Brasil, seguindo o movimento mundial The Craft Brewing Renaissance, há muita gente fabricando cerveja em casa, fazendo cursos de cervejaria artesanal, organizando associações e eventos cervejeiros. A propósito das artesanais, estima-se que em 2007 elas tenham vendido 22 mil hectolitros dos 5,7 milhões consumidos no país. Uma participação de 0,4% que está incomodando as grandes, que têm incorporado vários novos estilos ao seu portfólio.
Há outros fatores que demonstram o crescimento do mercado e o maior interesse pela cerveja. Um deles é o recente lançamento da edição 2009 do Guia da Cerveja no Chile, do espanhol Pascual Ibáñez, em que o sommelier avalia 189 cervejas encontradas no mercado chileno. O livro também conta com dados históricos, informações sobre a elaboração da cerveja, conselhos de harmonização e lugares onde é possível tomar uma boa cerveja.
Outro ponto que corrobora com a febre da cerveja no vizinho andino é a verdadeira “proliferação” de festas da cerveja ao longo de todo o país: Puerto Varas e Concepción, no ano passado, e Melipilla e Viña del Mar em 2009, além do maior interesse por outras mais antigas (Llanquihue e Valdivia). Vale ressaltar que, como acontece no Brasil, é impossível desvincular a cerveja da imigração alemã. Regiões como Malloco, Valdivia, Llanquihue e Puerto Varas foram importantes centros de colonização germânica.
Mas, apesar de todas essas festas, a principal é, sem dúvida, a Bierfest de Malloco. Um sucesso total, a ponto de já ter se transformado em referência no Chile. O evento teve sua 4ª edição entre 29 de outubro e 9 de novembro do ano passado, dentro da área metropolitana de Santiago. Malloco 2008 teve a participação de 30 cervejarias e um público de 42 mil pessoas que consumiram, aproximadamente, 40 mil litros de cerveja. Se compararmos esta festa com a Oktoberfest de Blumenau, por exemplo, o público ainda é muito pequeno. A soma total do público do evento chileno é inferior ao de um único sábado catarinense, embora o consumo médio seja superior – quase o dobro! Será o chileno mais sedento que o brasileiro? Uma explicação para isso talvez seja a lei que proíbe o consumo de bebidas alcoólicas em vias públicas, o que desperta no chileno a vontade de tomar uma cervejinha ao ar livre com os amigos sempre que é possível.
As Festas
1ª Fiestasta de La Cerveza de Melipilla
Pela primeira vez, a cidade de Melipilla, localizada a 60 km de Santiago e entusiasmada com o sucesso de Malloco 2008, organizou a sua festa da cerveja. Infelizmente, devido à falta de divulgação, o público ficou muito aquém do esperado. De acordo com os organizadores Andrey Musri e Mauricio Martinez, apenas 2 mil discípulos de Gambrinus compareceram ao local nos dias 16, 17 e 18 de janeiro.
As principais cervejarias participantes foram: Capital, Tubinger, Nacion, Edelstoff, Cervecera Del Puerto, Die M, Troya, Kvas, Tajano, Odoolan e Nibter, todas artesanais, com cervejas e estilos variados. De toda a oferta de cervejas do evento, vale a menção à Porter da Kvas, super robusta, e a Odoolan, igualmente boa, mas não tão encorpada.
Contudo, o estande mais interessante era o da Tortuga Negra. Lá, havia quatro ex-alunos da “escola de cerveja artesanal” Minicerveceria, que apresentaram suas ‘invenções’ e produções. A Minicerveceria, que também tinha um estande próprio, é uma empresa que oferece cursos, assessora cervejeiros caseiros e artesanais, além de prover equipamentos e matéria-prima. É responsável, junto com sua concorrente Mundo Cervecero (também presente em Melipilla) pela maioria das boas cervejas do mercado. No estande, destacavam-se a Vectus, ganhadora do concurso de cerveja caseira em Malloco 2008, criada pelo iniciante Ignacio, e a cerveja La Biére, com beterraba! Apesar da mistura parecer estranha, o tubérculo deu um sabor super refrescante (e uma cor atraente) à original Pale Ale. Certamente os professores Marjorie e Claudio Miranda estavam orgulhosos de seus pupilos.
4 ª Bierfest de Valdivia
O sul do Chile, principalmente a região entre Valdivia e Puerto Montt, é conhecido pela forte colonização alemã. Os primeiros imigrantes germânicos começaram a chegar em 1845 graças à “Lei de Imigração Seletiva”, que visava atrair profissionais e artesãos dispostos a povoar essa zona.
Uma das mais belas cidades da região é Valdivia, cujo aspecto é tipicamente alemão. Essa cidade é conhecida por sua beleza e pelos rios navegáveis que a circundam, e por ter sido severamente afetada pelo trágico terremoto de 1960, um dos piores registrados no planeta: 9,5 na escala Richter! Entre os cervejeiros, é mais conhecida por ser o berço da cervejaria Kunstmann, um verdadeiro ícone no Chile. Armin Kunstmann e sua família começaram seu negócio em setembro de 97 e, desde então, vêm colhendo os frutos de seu esforço. No momento, a cervejaria pertence, infelizmente, à gigante CCU (fabricante das principais cervejas chilenas: Cristal, Escudo y Royal Guard) e possui um restaurante com uma fábrica em seu interior, nos primeiros quilômetros da estrada para Niebla.
A Bierfest de Valdivia, organizada por 13 entidades municipais e a Kunstmann, inicia as atividades da Semana Valdiviana, principal evento cultural do verão na região. Um ponto interessante é que todo o dinheiro arrecadado é doado à Companhia de Bombeiros (no Chile se trata de entidade voluntária). Em 2009, a festa foi realizada entre os dias 29 de janeiro e 1º de fevereiro.
Todos os anos, o evento começa com um desfile que sai do centro da cidade, percorre as ruas principais e vai até o Recinto do Parque Saval. O desfile é composto de carros alegóricos com pessoas usando trajes típicos, além da tradicional carroça puxada por cavalos que distribui chope aos sedentos participantes. Quando o cortejo chega a seu destino, o prefeito da cidade, o embaixador alemão e o senhor Armin Kunstmann procedem a abertura do primeiro barril, o que inaugura oficialmente a Bierfest.
Como toda Bierfest que se preze, no primeiro dia, é escolhida a Rainha da Cerveja e, no sábado, é a final do campeonato do concurso de bebedores de cerveja. O campeão desse concurso recebe a coroa de Rei da Cerveja. Nesta edição, Paula Flores foi coroada a rainha e o ganhador entre os beberrões marcou um novo recorde de um litro em três segundos!
Paralelamente, se desenvolvem outras atividades, como o campeonato de pregar pregos e de cortar lenha, o encontro de remadores, a exposição de carros antigos, a regata do clube náutico, a expedição à selva valdiviana, tudo isso somado às tradicionais apresentações de bailes típicos. Como novidade, nesta edição houve um concurso de pintura em que o tema era “Valdivia, arte e cerveja”, no qual os artistas deviam pintar suas obras no próprio local para a apreciação do público.
Cecilia López, organizadora das quatro últimas edições, estima que tenham sido consumidos 14 mil litros de chope (mantendo a média chilena de um litro por pessoa, nesse tipo de evento) por 14 mil pessoas que puderam, inclusive, experimentar a nova variedade da cervejaria, a Weissbier.
25ª Bierfestst de Llanquihue
A festa da cerveja mais antiga do Chile acontece na cidade de Llanquihue, a mil km da capital chilena. A cidade está localizada em plena zona germânica, às margens do belíssimo lago de mesmo nome, e acontece no Club Gimnástico Alemán. O lugar é bastante amplo e comporta sem problemas a multidão, que fez fila para ingressar no clube nos dias 31 de janeiro e 1º de fevereiro.
Segundo os organizadores, o objetivo da festa é manter viva a tradição de seus antepassados através de atividades como uma série de concursos, apresentações musicais e de dança, além de shows de palhaços, mágicos e teatro, especialmente para as crianças. Porém, o ponto alto da festa é a competição entre cidades. Cada cidade conta com um time de homens e mulheres, e uma rainha, os quais são submetidos a várias provas que valem pontos. Na noite de sábado, se conhece a cidade vencedora, cuja rainha é nomeada a Rainha da Festa da Cerveja. Nessa oportunidade, a cidade vencedora foi Puerto Montt, que reverteu o placar na última etapa: a de beber cerveja!
