
por Guilherme Korte
Alguns historiadores apontam uma diferença essencial no modo de vida dos homens: o nomadismo e o sedentarismo. Os primeiros dedicavam-se ao comércio e à guerra, e os segundos à agricultura e à burocracia. Assim foi na China, onde os sedentários organizaram-se em vilas e cultivavam cereais com os quais produziam cerveja, protegidos dos guerreiros das tribos nômades da Mongólia pela Grande Muralha. Os comerciantes entravam pela muralha com suas especiarias, compravam de tudo um pouco e seguiam para a próxima parada nas chamadas Rotas da Seda.
Partindo com seda, especiarias e, dependendo da época do ano, também com cerveja penduradas no lombo de camelos, eram percorridos milhares de quilômetros de desertos, planaltos gelados e planícies aos pés de grandes cordilheiras. Em função desses caminhos, a bebida fermentada foi difundida por toda a região, alimentando e alegrando os viajantes pelos caminhos mais intrépidos e perigosos.
Qingdao Beer – a primeira cervejaria
Em 1897, dois missionários alemães foram assassinados na Província de Shangdong. Usando essas mortes como pretexto, o Kaiser Wilhelm II forçou os governantes imperiais da Dinastia Qing a ceder, por 99 anos, a título de ressarcimento moral, a pequena vila pesqueira de Qingdao. Para manter e assegurar o pequeno território, o Kaiser construiu ali um típico vilarejo alemão, uma ferrovia que a ligava à capital da província, um excelente porto, além de outras benfeitorias.
Os trinta quilômetros que separam a Sagrada Montanha Taoista Laoshan de Qingdao não impediram a canalização de suas águas em direção à cidade. Situada 1.133 metros acima do nível do mar, a região guarda águas cristalinas em suas rochas.
Pois, então, as modernas tecnologias, o conhecimento das leveduras, dos processos de fermentação, as temperaturas ideais e a ciência do produto encontraram-se com as sagradas águas da Montanha Laoshan e, em 1903, sob a direção da Real Germania-Brauerei, foi fundada a Qingdao Beer, para suprir as tropas e os poucos estrangeiros que ali moravam.
Em 1914, no início da I Guerra Mundial, os japoneses tomaram a região e somente em 1922 os chineses puderam voltar à cidade. Ali, a arquitetura alemã havia deixado sua marca e estabelecido, mesmo durante a breve estadia, um centro cervejeiro que, após 106 anos, produz uma das cervejas mais consumidas do mundo.
Século XXI
Hoje, são dezenas de cervejarias estatais e grandes grupos corporativos espalhados pelas províncias e com áreas de atuação bem definidas, assim como centenas de pequenas cervejarias municipais. Não fique surpreso se encontrar uma cerveja amarela, verde clara, outra roxa, uma com sabor de cereja, outra feita com algas de água doce, de babosa, de ginseng, e até mesmo de pepino. A criatividade e o conhecimento chinês das combinações de fermentação são interessantes e, até onde se sabe, saborosas. Dentre as maiores, encontramos mais de 600 cervejarias abastecendo o segundo maior mercado do mundo.
Em sua maior parte, os números chineses têm muitos dígitos. No nordeste, se bebe menos, talvez por muitos terem origem muçulmana, enquanto que no litoral leste, o consumo é bom. As grandes cervejarias do mundo estão comprando a porcentagem que conseguem das estatais provinciais e municipais: porém, nunca conseguirão ser majoritárias. O mercado é regional e muito competitivo. Em algumas províncias, vivem 100 milhões de habitantes, mas a menor tem três milhões. São 23 províncias no total, com cinco regiões autônomas e a capital Beijing.
A China vem despontando devido a seu grande mercado consumidor; entretanto, a cerveja mais consumida no mundo está escondida atrás da Muralha. Com vendas de 51,2 milhões de hectolitros ao ano, a Snow é a cerveja mais consumida no mundo, ultrapassando inclusive a Bud Light, com 48,4 milhões. Infelizmente ela é comercializada apenas na China.
Embora estes dados sejam contestados por algumas consultorias, a ascensão meteórica da Snow mostra seu ganho de mercado. No início da década, suas vendas não chegavam a cinco milhões de hectolitros. Em 2007, as vendas da cerveja cresceram 69% e, no primeiro semestre do ano passado, 22%. Fabricada pela joint venture entre a estatal China Resources e a SABMiller, a cerveja mais vendida do mundo deixou para trás marcas como a Budweiser, a Skol e a mexicana Corona.
A joint venture entre a China Resources e a SABMiller possui 57 cervejarias na China, com uma capacidade de produção de 100 milhões de hectolitros, 30% da qual ainda não utilizada. Isso significa que a fabricante da Snow poderá continuar a crescer em curto prazo sem realizar novas aquisições.
Mesmo sendo a cerveja mais vendida no mundo, a Snow representa apenas 5% do mercado, o que seria insignificante em qualquer país do mundo, menos na superpopulosa China, que tem em torno de 1,4 bilhões de habitantes. O consumo per capita no país é a metade do brasileiro – 25 litros, contra os 50 litros consumidos em terras tupiniquins. Porém, o Brasil possui apenas 180 milhões de habitantes, o que faz com que a China fique em primeiro lugar no ranking de consumo por volume – 35,152 milhões de litros (2006).
Sob esse ponto de vista, a China parece um local promissor para investimentos, especialmente em relação à cerveja. Infelizmente, esse investimento não é tão simples assim. As empresas não querem arriscar e não é fácil entender o gosto peculiar dos chineses em relação à cerveja.