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por Guilherme Korte

Deixando a capital paulista e descendo a sinuosa serra Mogi-Bertioga, através de sua deslumbrante paisagem natural se alcança a rodovia BRBR-116, conhecida como Rio-Santos. Rumando para o norte, sentido Rio de Janeiro, e percorrendo inúmeras praias lindas, buscamos locais onde as cervejas são consideradas mais que meras coadjuvantes de um feliz dia de sol na praia. Boas surpresas nos aguardavam nessa “árdua” tarefa. Venha conosco descobrir onde estão escondidas os melhores “pit-stops” desse roteiro feito sob medida para os amantes e apreciadores de cervejas.

Compaompanhia das Índias – Boracoracéia

O mangue é coberto pelo piso impecável de madeira de lei. O teto realça a palha e o madeirame roliço de eucalipto. As cervejas individuais e importadas em copos esfumaçados dão um requinte inesperado, como a Erdinger, por exemplo. Por estar localizado à beira da rodovia, o restaurante recebe turistas de diversas partes do Brasil que, em sua maioria, aceitam imediatamente a sugestão de Rafael Jetka, 20 anos, dois anos de casa, quando se trata de escolher entre os oito tipos de cervejas especiais da carta. Com salas de espera e mesas cheias, o restaurante prevê um aumento no consumo de cervejas especiais, já que se trata da bebida preferida do brasileiro. Para o estabelecimento, em um mercado em crescimento, a rentabilidade já é positiva – chegam a vender dez caixas de cervejas especiais por noite. “As tradicionais continuam com consumo forte mas, silenciosamente, as artesanais vão agradando o apreciador, refinando seu paladar”, finaliza Rafael.

Varandão - Juquehy

E duardo Ferlsmann, 48, chegou há onze anos no litoral. Trouxe a família e montou um pequeno restaurante à base de frutos do mar. De fala tranquila e conhecedor de cervejas, nascido na Alemanha, vizinho de muro de uma cervejaria e de outras quatro nas cercanias de Wiesbaden, sua cidade natal, agradeceu quando o pessoal da cerveja Therezópolis entrou no Varandão. Com um marketing agressivo e garçons treinados e motivados, as vendas se igualaram às das tradicionais nesta terceira temporada em que são oferecidas as cervejas gourmet. A bar girl Alana Santos, 22, serve no Varandão há oito meses e já não estranha quando os clientes pedem uma tradicional para depois degustar as especiais. Sugerem trocar no balde com gelo, sem perguntar o preço. A idéia de degustar cerveja ainda soa estranho. Já ao abrir, menciona Alana, elas causam sensação. Aromas distintos, temperaturas específicas para cada rótulo, aguçam a curiosidade e a intenção de apreciar o momento com amigos e parceiros. O assunto muda, diz Eduardo. “Até a presença de um copo de forma diferente ou da garrafa com visual respeitoso é convidativa. A antiga chamada do barulhinho da tampa abrindo já não é tão eficaz”. Com nove cervejas especiais no cardápio, ele conta que ouviu de um cliente que o tabu de peixe com vinho acabou. Algumas delas completam o sabor tanto de frutos do mar quanto da carne.



Vilaila Bistrô – Juquehy

O local com estrutura de madeira, panôs coloridos no teto e ambiente aconchegante é propício para uma boa conversa refrescada por fermentadas saborosas. São servidos nove tipos de cervejas. Vendê-las ao consumidor acostumado a consumir cerveja é fácil. Basta mencionar um rótulo diferente, com sabor encorpado, corpo cremoso, teor alcoólico distinto e os clientes não pensam duas vezes. Daisiane Pereira, 24, serve há três anos ali e vê curiosa o consumo crescer e a constante sofisticação dos produtos. “São tantos copos que servir uma cerveja chega a ser mais complexo do que servir um vinho”,diz. São sabores marcantes, pois o cliente volta e pede aquela mesma do dia anterior. Não esquece o aroma tostado, a espuma densa, a coloração amarelo-ouro. “O momento das cervejas especiais chegou”, conclui Daisiane.

Tiê – Camburi

Há 17 anos no litoral norte, o restaurante convive com o progresso e com os períodos de calmaria. Marcos Mattos Monteiro Alvarenga, 42, sócio, é sommellier de vinho. Apreciador de cerveja, diz que aprender a consumir uma bebida nova leva tempo e inspira. Inspira novos pratos, novas degustações, novas combinações, novos vocabulários, novas cartas, temperos novos; “um desafio gratificante”, diz ele sobre o novo objetivo. Há pouco tempo no mundo das cervejas especiais, em dezembro último Marcos trouxe os novos rótulos para o restaurante. Sentiu a diferença em uma Feira Alimentícia no meio do ano em São Paulo. A composição de sabor, aroma e corpo estimulam ainda mais o consumo. A temperatura também é tema quando se bebe uma Stout, Pilsen, Weiss ou Red Ale. Os tipos de malte e as combinações de ingredientes ainda são argumentos de especialistas, mas não levam muito tempo para chegar à mesa. A sensação de tomar uma cerveja especial com sabor forte é nova para os brasileiros. “Malte e lúpulo são palavras novas no vocabulário”, diz Mattos. No litoral, ideal para a apreciação de cerveja, com calor e temperatura propícios para um bom papo, poucos fornecedores vislumbram este mercado. Para acompanhar a Krombacher, Mattos recomenda a casquinha de siri do restaurante, feita com a verdadeira carne de siri desfiada à mão. “É um complemento fantástico para a culinária”, afirma com seus muitos anos de experiência no ramo.

Manacá – Camburi

Edinho Angel é parte da história do litoral norte de São Paulo. Há 20 anos abriu o Manacá e sempre busca novidades e tendências para satisfazer o variado paladar dos clientes. É frequentado por brasileiros e estrangeiros exigentes tanto no sabor do prato quanto da bebida que o acompanha. Edinho vasculha a memória e encontra cervejas especiais servidas ao longo das duas décadas: Urquell, Mestra Azurra, Bohemia Weiss, Grolsch, entre outras. A sintonia dos vinhos com a comida brasileira chegou ao consumidor e ficou. Hoje, nossa cultura absorveu os vinhos, seus sabores e variedades. Ao mesmo tempo, as cervejas especiais vêm vagarosamente abraçando os consumidores mais exigentes que não encontravam nas tradicionais brasileiras os sabores e aromas das importadas. Existiu uma época – não muito distante – em que beber cerveja era “out”, disse. Enquanto as cervejas artesanais, como a Therezópolis, a Baden Baden e a Backer, seguem na sua carta, ele vê com bons olhos esse novo mercado, que aguça a curiosidade pelas combinações. Os mistérios do gosto e da moda seguem seu destino, e agora é para a cerveja que se abrem as oportunidades na alta gastronomia e no desejo do consumidor, conta Edinho.


Purara Bar – Camburizinho

Ali no canto esquerdo da pequena praia de Camburizinho, entre as árvores da Mata Atlântica, o imenso oceano recebe o Sol avermelhando em suas águas. “Uma cerveja na temperatura ideal para seguir o tradicional caminho do Sol é imprescindível”, diz Marcelo Silva, proprietário do Pura Bar há três anos. A primeira cerveja oferecida foi a Devassa, que vinha do Rio de Janeiro com um amigo que trazia as caixas. Ficou até conhecido como o “Bar da Devassa” por uns tempos. Hoje, já serve outras opções de especiais, como Baden Baden, Colorado, Therezópolis e Heineken, mas promete ampliar o leque de opções. Marcelo diz que costuma ver os apreciadores discutindo o assunto “cerveja” com fervor. Ele, hoje com 40 anos, percebe com alegria o crescimento das microcervejarias e vê um grande mercado surgir. Com sabores e aromas diversos, às vezes Marcelo recebe dos clientes artesanais desconhecidas do público, que só quem pisa nos degraus do Pura Bar de Camburizinho pode conferir.

Deck – Ilhabela

Marianne e Eckard Schmidt chegaram da Alemanha em 1982 e abriram um bar. Cresceram e logo o restaurante se tornou um dos primeiros a conquistar um lugar de destaque na exigente cena gastronômica da badalada Ilhabela. Com clientes famosos, como os Rollings Stones, seguiram caminho pela culinária alemã e se especializaram em frutos do mar. Hoje, contam com o restaurante e um hotel com direito a quiosque “pé na areia”. Há muito tempo trabalham com cervejas especiais, porém novas marcas sempre aparecem de acordo com as solicitações dos clientes. “As pessoas que aqui frequentam curtem muito as cervejas importadas”, diz Rita Verneli, que trabalha com Marcel Schmidt. Ela vê com bons olhos os novos rótulos chegarem à casa. Os turistas regionais bebem as tradicionais, mas é só oferecer que seguem a tradicional curiosidade gustativa: “Ok. Pode abrir que vamos experimentar!”.



Fritz – Ilhabela

Logo na chegada da histórica e bela vila de Ilhabela, nos deparamos com o Bar do Fritz, em frente à praça da Igreja Matriz. Marcelo Barbosa Castelões, um dos sócios, conta que seu chope tem grande destaque e é servido em três versões: claro, escuro e o novo Natur, elaborado com fermento não filtrado, todos fabricados na cidade de Monte Verde, MG. E garante que eles não competem diretamente com sua ampla carta de cervejas especiais. Entre as várias opções de rótulos nacionais e importados, encontramos até mesmo algumas trappistas que, de acordo com o cardápio, são para “beber de joelhos”. Marcelo acredita em uma clientela exigente em relação a informações e qualidade, e investe cada vez mais nesses bons bebedores.

Viana – Ilhabela

Numa calma praia de Ilhabela está o Viana. Com uma brisa leve, água tépida, uma bela cerveja com uma porção de camarão, e a praia é o sonho de muitos que vivem sentados em escritórios ou parados no trânsito. Hoje, oferecem aos clientes um pouco mais que o esperado.Depois do restaurante, abriram, em 1994, um quiosque “pé na areia”. Trabalham com frutos do mar, todos pescados na região. Eugen Shoof, neto da proprietária Loren, diz que boa parte da clientela conhece as cervejas especiais e já vem com o pedido na cabeça. A harmonização natural, segundo ele, é pedir uma barquinha de camarão com a Erdinger Weiss. “Hoje, já temos um diferencial no mercado. Ainda temos que caminhar muito, oferecer um treinamento continuado a nossos funcionários e exigir informações completas dos fornecedores sobre copos, temperatura de serviço e dicas de harmonização”, acrescenta. Eugen, com sua pouca idade, já é quase um especialista em cervejas.

Ostrastra e Ouriço - Caraguatatuba

André Andrade Mariano esta há 23 anos com o restaurante da família. Especializado em frutos do mar, começou com cervejas diferenciadas há doze anos, com a Cerpa. As especiais demoraram a chegar por falta de distribuição no litoral. “Pensamos em buscar uma cerveja para substituir o vinho, bebido apenas nos dias mais frios; e a cerveja é a bebida do brasileiro. Uma explanação rápida sobre a nova cerveja, informações personalizadas, dados sobre os ingredientes, fermentação e temperatura ideal para o consumo e o cliente aceita a sugestão”, explica. “Além disso, temos um pessoal bem treinado graças aos distribuidores e ao treinamento intenso. A clientela, cada dia mais exigente, passou a nos sugerir a busca de novas cervejas. Aumentei o número de rótulos”, diz André. Com diversos rótulos na carta, entre elas Eisenbahn, Devassa, Baden Baden e algumas importadas, como a Franziskaner, ele procura disponibilizar informações sobre cada uma delas. Vale a pena explorar uma das várias opções de ostras oferecidas, às quais André dedica um cuidado muitíssimo especial. Depois, é só escolher uma das cervejas para uma degustação sem igual.

Perequim – Ubatuba

Há 33 anos, João Carlos vive à beira-mar. No seu tradicional restaurante, servia chope. Segundo ele, isso dava um trabalho bem grande e a qualidade deixava a desejar. Depois que conheceu algumas casas especializadas em cervejas, como o FrangÓ, em São Paulo, começou a servir cervejas nacionais e algumas importadas. O restaurante hoje conta com a maior carta de cervejas do litoral norte paulista, tendo mais de 60 rótulos de cerveja. “Entusiasmei-me. Percebi que o consumidor quer saber tudo: de onde vêm, quem faz, onde faz, os ingredientes. Os clientes começaram a querer mais informações. Quem bebe hoje quer saber o que está bebendo. Impressionante como a curiosidade dos bebedores é maior que a força da mídia”, diz João Carlos.
A solução foi formar melhor os garçons, oferecendo um treinamento direcionado a cada produto. Com a recomendação certa, o cliente consome as cervejas especiais. Segundo João, o começo foi difícil, pois os pequenos fabricantes não tinham logística para entregar no litoral norte, então entregavam na casa de amigos do proprietário em São Paulo, que as traziam no final de semana. “Hoje, com outros restaurantes que também servem cervejas especiais, está mais fácil. O apreciador nos pediu e não podemos negar”, salienta. “Existe, claro, um pouco de bairrismo também. Os cariocas querem a Devassa, o pessoal de Ribeirão Preto quer a Colorado, e isso nos motiva a ter mais e mais rótulos”, continua João. Isto fez com que o restaurante começasse a elaborar um cardápio para acompanhar as diversas cervejas. “A cultura de unir cerveja e um prato específico – a harmonização – leva um tempo ainda para pegar, mas veio também para ficar”, finaliza.


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