
por Herbert Schumacher*
Nesta época do ano, nada melhor para
os Beer Lovers do que falar sobre
cervejas fortes. Mais especificamente,
sobre as cervejas do tipo Bock e
Doppelbock, provenientes da escola
alemã. É sobre elas que vamos nos
aprofundar nesta edição.
Doppelbock
Meu relacionamento com as cervejas
Doppelbock começou em 1986. Na
época, morava em Munique e tive que
me submeter a uma pequena cirurgia
em uma clínica localizada à beira do lago
de Starnbergsee - ao sul de Munique,
na Baviera. Meu colega de quarto, um
alemão de aproximadamente 80 anos e cabelos grisalhos, durante uma conversa sobre
cerveja disse: “A melhor cerveja da Alemanha é
feita na Baviera. A melhor cerveja da Baviera é
feita em Andechs”.
No pequeno povoado de Andechs, ao sul
de Munique, encontramos o Monastério de
Andechs, desde 1455 no topo da montanha
sagrada (Heiliger Berg). Trata-se de um
monastério de monges beneditinos que produz
cervejas do tipo Doppelbock – e enquanto morei
em Munique fiz várias excursões, geralmente a
pé, até a montanha sagrada apenas para tomar
essa que é uma das melhores Doppelbocks
que conheço.
Especialmente para a Revista
Beer Life, estive novamente no último domingo
de julho, após muitos anos, no Monastério de
Andechs - uma das únicas cervejarias que produz
a Doppelbock durante o ano todo - para me
encontrar com o diretor da Academia Doemens, Wolfgang Stempfl. Durante a visita,
pude constatar a excelente qualidade da
Andechser Doppelbock.
Outra referência tradicional para o estilo
Doppelbock é o Monastério de Weltenburg,
fundado em 1060, à margem do rio
Danúbio, também na Baviera. Os monges de
Weltenburg produzem uma Doppelbock de
6,9% vol, também famosa, conhecida como
Asam Bock - o nome é uma homenagem
aos mestres do Barroco, os irmãos Asam.
A história dessa cerveja forte de baixa
fermentação, típica da Baviera, começou
com os monges Paulaners em 1627.
Quando trazidos para Munique por Maxiliano
I, durante os movimentos da contrarreforma,
os monges fundaram o monastério de
Neudeck, em 1629. Nessa época, a cerveja
era produzida especialmente para o período
de jejum da quaresma (entre o carnaval e
a Páscoa) e o período do advento, quando
os monges não podiam comer alimentos
sólidos. Isso porque, como diz a regra
monástica: “Liquida nom frangunt ieiunium“
(líquido não quebra o jejum).
Para que pudessem se alimentar durante
esses dias, fizeram uma Doppelbock e a ela
deram o nome de Salvator, em homenagem
a Sank Vater Franz. Desde então, esse
tipo de cerveja se tornou um clássico da
categoria e é produzido até hoje. A fim
de manter a tradição, outras cervejarias
alemãs, assim como as de outras partes do
mundo, produzem Doppelbocks e utilizam
o sufixo “ator” para caracterizar o estilo:
assim, surgiram a Optimator, a Triumphator,
a Maximator, a Impulsator, a Celebrator e a
Curator, entre tantas outras.
No Brasil temos como representante
desse tipo de cerveja a Emigrator, da
Cervejaria Abadessa do Rio Grande do Sul.
A fórmula foi desenvolvida com base na
famosa Coronator da Cervejaria Kronen,
de Tettnang, na Alemanha, e é produzida
seguindo a lei de pureza alemã. Outra
cervejaria brasileira que produz uma versão
do estilo Doppelbock é a Baden Baden.
Segundo o Guia de Estilos da Association
of Brewers, a Doppelbock é uma cerveja
Lager, de baixa fermentação; tem coloração
de âmbar a próximo de preto e paladar
rico de malte escuro, sem caráter acre ou
queimado; possui baixo amargor e quase
nenhum aroma de lúpulo. A cerveja é ainda encorpada com uma nota de álcool em seu
gosto e possui geralmente entre 6,5 % e 8
% de álcool.
As Bocks
Outra cerveja semelhante é a do tipo Bock,
versão mais suave da Doppelbock e que
tem sua origem no norte da Alemanha,
precisamente na cidade de Einbeck,
localizada no estado da Baixa Saxônia.
A cerveja Bock era fabricada como um
produto de exportação, sendo levada, entre
outras localidades, para a Baviera e para a
Itália. Devido ao transporte, buscou-se algo
que pudesse manter a qualidade da cerveja
durante os longos caminhos, e a bebida foi
sendo produzida com alto extrato primitivo
- o que a torna bem alcoólica.
Os bávaros se tornaram grandes
consumidores da cerveja de Einbeck, à
qual se referiam como Ainpockpier (cerveja
de Einbeck). Com o passar do tempo,
começaram a chamá-la de Pockpier
(Bockbier). Os bávaros gostavam tanto dela
que não demorou muito para contratarem
um mestre-cervejeiro de Einbeck, Elias
Pichler, para a Hofbrauhaus de Munique,
em 1614. Desde então, os bávaros
se tornaram os maiores produtores e
consumidores de cerveja do estilo Bock na
Alemanha.
Segundo o Guia de Estilos da Association
of Brewers, a cerveja Bock clássica tem
coloração de cobre a marrom escuro. Não
é doce, nem seca e tem frequentemente
um paladar de torrado, chocolate e noz. O
amargor é baixo e algum paladar de lúpulo
pode ser notado, embora raramente seja
detectado. Além disso, a cerveja Bock
tem corpo médio a encorpado e teor
alcoólico entre 6,0 % e 7,5 %.
Aqui no Brasil temos várias
cervejas representantes
do estilo Bock, como as
produzidas tanto pelas
principais microcervejarias
de Lagers quanto por bons
cervejeiros artesanais - a
Bamberg Bock e a Baden
Baden Bock são dois bons
exemplos.
*Herbert Schumacher é o
proprietário da Cervejaria
Abadessa do Rio Grande do Sul.