Cadastrado Efetuado com sucesso!



por Kathia Zanatta*

Partindo de Bruxelas sentido noroeste (para a província de Flandres), chegamos à pequena vila de Buggenhout que, com apenas 15 mil habitantes, é o abrigo de uma das mais tradicionais cervejarias belgas: a Bosteels Brouwerij. A cervejaria cresceu ao redor de um casarão do séc. XVII, construção cuja história se confunde com as origens da família Bosteels que lá nasceu e morou por mais de dois séculos.

Hoje, a fábrica é comandada pela sétima geração da família e produz cervejas de autenticidade incontestável.

A visita às instalações da cervejaria pode ser agendada por telefone e tem um custo simbólico de seis euros por pessoa. Na maioria das vezes é realizada em flamengo, a língua local – praticamente impossível de se entender uma única palavra! Entretanto, as traduções para inglês acontecem frequentemente.



Com instalações tradicionais, a hospitalidade e a qualidade de seus produtos são os pontos fortes da cervejaria e fazem dela um local esplêndido para os amantes da boa cerveja.

Três tipos de cervejas, bastante originais e diferentes entre si, são produzidas e todos os visitantes são conduzidos para uma sala de degustação onde podem provar duas delas: a Kwak e a Tripel Karmeliet.

A primeira tem sua história iniciada no século XVIII. Pauwel Kwak era cervejeiro e proprietário de um estabelecimento em Dendermonde, no interior da Bélgica, onde muitas carruagens faziam suas paradas para descanso e refeições.

Observando que os cocheiros não tinham autorização para deixar charretes e cavalos sozinhos e, por isso, não matavam sua sede, Pauwel Kwak desenvolveu um copo especial que pudesse ser carregado nas charretes e que possibilitasse o consumo de cerveja pelos cocheiros.

Para esse copo foi desenvolvida a cerveja Kwak, produzida com maltes pilsen e torrados, além da adição de candy sugar. Ela possui um aroma caramelado, notas torradas suaves, especiarias e sinais de frutas secas como figo e ameixa. Seu sabor é marcante e remete a castanhas e especiarias, enquanto que o amargor, médio e persistente, é acompanhado pelo aquecimento conferido pelo teor alcoólico de 8,10GL. Ainda é tradicionalmente consumida somente em seu copo, e grandes e rápidos goles dessa cerveja não são aconselhados... ou... Kwak! Um grande gole de cerveja pode, sim, acertar seu nariz! A segunda cerveja degustada foi a Tripel Karmeliet. Sua receita originária de 1679, proveniente do monastério Carmelita (que deu origem ao seu nome), contém três grãos diferentes: cevada, trigo e aveia - malteados e não.

O resultado dessa mistura passa por refermentação na garrafa e possui características únicas. De coloração dourada e espuma densa, seu aroma é composto por notas de baunilha, flor de jasmim e damascos. O sabor é suavemente adocicado e revela cremosidade e frescor. O teor alcoólico é de 8,40GL, mas não é percebido com tal intensidade, o que lhe confere um bom drinkability. Em 2008, merecidamente, a Tripel Karmeliet foi considerada a melhor Ale do mundo pelo World Beer Awards.

Ao final da degustação tivemos o prazer de conhecer Ivo Bosteels e sua esposa, proprietários da cervejaria. Com grande simplicidade e simpatia, Ivo nos brindou com uma conversa histórica acompanhada pela cerveja divina: a DeuS.

Essa é a terceira e mais elegante cerveja da Bosteels, conhecida como ‘Brut des Flandres’. Segundo Ivo, para o desenvolvimento dessa cerveja tipo champagne, foram necessários quatro anos de árduo trabalho.

Antes do lançamento, três grandes nomes do universo cervejeiro foram convidados para degustar a inovação: Garrett Oliver, Michael Jackson e Fred Eckhardt. “Ao lado da DeuS, o champagne é sem graça”, concluiu Fred Eckhardt.

A produção do mosto e a primeira fermentação acontecem em Buggenhout e, em seguida, a cerveja segue para a região de Champagne na França, onde passa pelo processo conhecido como ‘champenoise’. Esse processo envolve envasamento, segunda fermentação na garrafa, remuage* e dégorgement**.



Por sorte, no dia da nossa visita, presenciamos a transferência da cerveja DeuS para o caminhão tanque, que logo partiu em direção à França para dar continuidade à fabricação do líquido divino. Devido a esse trabalhoso e demorado processo, são produzidas somente 40 mil garrafas da DeuS por ano. A garrafa chega a ser vendida no Brasil por mais de duzentos reais.

“Eu produziria metade de nossa capacidade, mas nunca faria promoção de nossas cervejas”, comenta Ivo sobre a valorização da qualidade e diferenciação de seus produtos. O serviço da DeuS acontece em taças tipo champagne, ideal para apreciação da sua textura elegante e delicada. Seu aroma complexo revela notas cítricas acompanhadas por gengibre, lúpulo e suaves especiarias. Na boca, pela doçura, suavidade e intenso perlage, a DeuS realmente se assemelha muito ao champagne, remetendo ao sabor de uvas e maçãs verdes. “É esplêndida. Nunca bebi algo assim”, concluiu Garrett Oliver.

O acolhimento de Ivo e sua esposa não parou por aí. Após a degustação, ainda tivemos o prazer de conhecer as carruagens e os coches da família, que até hoje são utilizados em ocasiões especiais.

Dentro do antigo casarão, Ivo mostra também os retratos dos seus antigos ancestrais, pendurados na parede, e fala sobre sua responsabilidade na condução dos negócios da família: “Todos eles me olham todos os dias e dizem: faça tudo correto! Seja forte!”. Essa e todas as outras mensagens deixadas por Ivo revelam sua grande paixão pelo negócio cervejeiro e certamente justificam a originalidade e a criatividade no desenvolvimento de seus produtos e marcas. A visita à cervejaria Bosteels é simplesmente uma oportunidade e uma experiência imperdíveis para aqueles que amam a boa cerveja.

*Kathia Zanatta é Beer Sommelier.

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