

Que tal beber uma cerveja que foi desenterrada? Pode
parecer estranho, mas foi exatamente isso que o pessoal
da Confraria do Marquês (www.confrariadomarques.com.
br) fez. Em julho do ano passado, Mauro Nogueira, Tiago
Dardeau, Andre Nader e Pedro Ribeiro enterraram uma
caixa contendo aproximadamente 20 garrafas de cinco
tipos diferentes de cervejas.
Na época, algumas delas já tinham um ano de garrafa,
mas a “Exumada”, como ficou conhecida a cerveja do
Mauro no encontro da FemAle Carioca, tinha apenas seis
meses.
Ainda parece loucura enterrar garrafas de cerveja e
depois de um tempo desenterrá-las para descobrir suas
modificações? Mauro explica que o motivo que os levou
a fazer esse ‘ritual’ foi a dificuldade que possuem para
não abrir as garrafas. “Há sempre uma ocasião especial
e muitas vezes fraquejamos no objetivo de guardar uma
determinada garrafa. Enterradas, elas estariam a salvo de
nossa sede”, comenta Mauro.
Para fugir do desejo dos homebrewers da AcervA Carioca,
as cervejas foram deixadas em um sítio em Teresópolis,
em local úmido e à sombra. Isso porque a temperatura
média anual da cidade é de 17ºC, embora, a sete
palmos abaixo da terra, os confrades acreditem que a
temperatura estivesse em torno de 13ºC, “sofrendo assim
uma variação de temperatura muito menor que a do
mundo dos vivos”, brinca Mauro.
A Exumada era uma Barley Wine de 10% abv, produzida
no início de 2008. Segundo um famoso autor americano
citado por Mauro em um dos encontros da FemAle, a
Barley Wine é feita com cinco ingredientes em vez de
quatro. Isso mesmo, cinco ingredientes! Mas qual seria
ele, além da água, do malte, do lúpulo e da levedura?
“O tempo”, explica Mauro. “Uma Barley Wine pode
ser guardada durante muitos anos. A cada ano novos
atributos são percebidos, como o que ocorre com o vinho.
E o quinto ingrediente é o que a torna verdadeiramente
única”, informa.
A Barley Wine produzida por Mauro foi uma tentativa
de clonar a Inveja de Baco, cerveja de Ricardo Rosa
vencedora do II Concurso Nacional de Cervejas Artesanais
promovido pela AcervA Carioca em 2007 - segundo
Mauro, a cerveja de Ricardo é uma das melhores que ele
já experimentou e seria um grande desafio fazer igual.
“Porém, como era de
se esperar, uma cepa
alternativa de levedura
a deixou bem diferente,
mas com outras
características bem
ricas”, informa Mauro.
Todas as garrafas enterradas
tiveram suas tampinhas protegidas
com filme de PVC e foram colocadas dentro
de uma caixa de isopor. A tampa da caixa foi colada
com fita durex e as caixas, envolvidas com três
sacos plásticos grossos de 200 litros. Depois de
um ano enterradas, as cervejas foram retiradas do
esconderijo. “O impressionante foi constatar que,
mesmo com os sacos e as vedações intactas, havia
um palmo de água dentro da caixa de isopor onde
estava guardado o ‘tesouro’”, conta Mauro.
Embora uma Barley Wine precise de tempo para
envelhecer, quais foram as mudanças ocorridas
nesse tempo em que a cerveja ficou enterrada?
Em um ano, uma cerveja já deveria mostrar-se
afetada pela oxidação, o que não é defeito em
se tratando de uma Barley Wine. A Exumada, já
relativamente idosa, segundo os participantes do
encontro da FemAle realizado no dia 14 de agosto
estava ‘inteirona’ no que diz respeito aos efeitos de
oxidação. “Em relação à versão “verde”, estava mais
límpida na aparência e com uma bela cor vermelhorubi.
Estava ainda mais equilibrada no binômio
doce-amargo e com sabor de malte mais apurado.
Além disso, o quinto ingrediente melhorou muito a
cerveja”, revela o criador.
A literatura recomenda que uma Barley Wine mature
por pelo menos três meses, podendo envelhecer
por muitos anos (de oito a dez). Esse um ano foi
apenas a primeira experiência - muitas garrafas
e um relativo controle de temperatura. Depois de
algumas degustações, sobraram ainda garrafas da
Exumada, que, segundo Mauro, vão voltar a comer
capim pela raiz mais alguns anos. Daqui a dois anos
desenterraremos a Exumada e esta história para
descobrir se o mundo dos mortos faz bem à cerveja! (M.P.)