
O formato do copo contribui
para enfatizar os aromas e
sabores da cerveja
por Káthia Zanatta*
Há centenas de anos já existiam diversos recipientes
customizados para se beber cerveja, feitos dos mais diferentes
tipos de materiais. Cerâmica, argila, couro revestido e metais
diferenciados, como o ouro, tinham o mesmo propósito:
entregar a cerveja de forma agradável e especial aos sentidos
do ser humano.
Foi na segunda metade do século XIX que o vidro se tornou o
material mais comum na fabricação de copos. A partir daí, os
copos de cerveja tiveram seu desenvolvimento acelerado, em
diferentes geometrias e tamanhos. Assim como existe mais de
uma centena de estilos de cerveja, também existem inúmeros tipos de copos, cada qual com um formato ideal para cada
tipo de cerveja.
Dessa forma, o que esperamos e queremos de um copo de
cerveja?
Primeiramente, espera-se que possamos ver a bebida e
admirar sua cor e espuma. A atratividade das cervejas é
diretamente afetada pelo serviço em um copo de formato
correto e também bem limpo. Traços de gordura ou sabão
destroem rapidamente a espuma da cerveja e conferem a ela
uma aparência pouco atraente e apetitosa.
A formação de espuma também é influenciada positiva ou
negativamente pela geometria do copo. Aqueles em formato
de cone, por exemplo, dão suporte à espuma e intensificam
sua estabilidade.
A importância técnica e cultural da espuma é tão grande que,
atualmente, algumas cervejarias, como a americana Samuel
Adams e as belgas Duvel e Westmalle, produzem seus copos
com micro ranhuras no fundo para propiciar a frequente liberação de bolhinhas de gás e a contínua alimentação da
espuma.
A maneira como o copo se encaixa na mão também é
relevante. Alças e hastes, por exemplo, facilitam o segurar
do copo e evitam que nossas mãos transfiram muito calor à
cerveja.
E, depois de olhar e segurar, queremos sentir o aroma da
cerveja: o formato do copo afeta diretamente a volatilização
dos aromas e a intensidade com que são percebidos. Copos
com bocal mais estreitos, como os cilíndricos (stange), cônicos
e taças tipo flute, concentram os aromas da cerveja em uma
área de percepção pequena e, por esse motivo, são indicados
para cervejas com aromas suaves como, por exemplo, as
Pilsens, Kölsch, Vienna e Lambics.
Em contrapartida, copos com o bocal mais aberto, como
cálices, tulipas e copos de Weizenbier, propiciam maior
volatilização e expansão dos aromas e, justamente por isso,
são utilizados para o serviço de cervejas aromáticas. Ales belgas como Strong Golden e Strong Dark Ales,
cervejas tipo Abadia, Weizenbiers, Porters e Stouts
são exemplos de cerveja que pedem um bocal
mais largo.
O formato do copo também tem influência direta
no sabor da cerveja. A velocidade com que a
cerveja atinge a boca quando vem de copos mais
retos, como o cônico, é maior, pois a bebida
vai diretamente para a parte de trás da língua e
tem menos contato com a parte frontal - como
mostram diversos estudos, a parte de trás
da língua possui uma maior concentração de
receptores do gosto amargo, fazendo com que a
sensação do gosto da cerveja seja intensificada.
Podemos observar, portanto, que as cervejas tipo
Pilsen tradicionais tchecas e alemãs, que têm
como característica marcante o amargor entre
30 e 40BU (bitter units), são tradicionalmente
servidas em copos desse formato.
Copos com bases mais largas, parecidos com os
de conhaque ou vinho tinto, entregam a cerveja
à boca de forma mais lenta - toda a língua,
assim, é envolvida pela bebida e todos os gostos
são percebidos da mesma forma. Esse aspecto
também é influenciado pela borda do copo. O
formato da borda altera o local da língua no qual
a cerveja é entregue e, portanto, interfere nos
sabores percebidos pela boca. A seguir alguns exemplos e suas características.
Lager: Bocal estreito para concentrar os aromas
e formato que auxilia na estabilidade da espuma.
Tradicional em cervejas tipo Pilsen. O pé lhe
confere elegância e estabilidade.
“Bierkrug”: Os tradicionais canecos alemães
com tampa têm uma justificativa: os bávaros
comumente apreciavam (e até hoje apreciam!) sua
cerveja nos jardins e a tampa visava evitar que as
folhas das árvores caíssem em suas cervejas.
As Tulipas são copos muito versáteis para a
utilização no consumo de cerveja. Seu corpo
arredondado captura os aromas e a borda voltada
para fora se encaixa perfeitamente nos lábios e
ajuda na sustentação da espuma. A cerveja Duvel
(Strong Golden Ale) é tradicionalmente servida
nesse formato de copo e metade do seu volume é
reservado para a densa espuma da cerveja.
O “goblet”, muito utilizado pelas cervejas
belgas especialmente as Trappistas e de Abadia,
é indicado para cervejas de alta intensidade
aromática, já que sua boca é larga e seu corpo,
arredondado. Seu formato e sua haste conferem
beleza e atratividade à cerveja e evitam que o calor das mãos seja rapidamente transferido para o líquido.
Este é o “pint”, tradicionalmente utilizado pelas Stouts e a
maioria das Ales inglesas. Seu corpo mais fino na parte inferior
propicia melhor encaixe nas mãos, e o arredondamento mais
largo acima ajuda na captura dos aromas. A abertura média
do bocal é ideal para cervejas de intensidade aromática
moderada.
Shaker: Este formato de copo era originalmente utilizado para
fazer coquetéis, como um “shaker” – por isso o nome “shaker
pint”. Seu formato não tem grande influência em aromas,
sabor ou espuma da cerveja. Apesar de muito utilizado nos
EUA, seu uso deve ser limitado a cervejas sensorialmente mais
neutras, como as populares American lagers.
Flute: indicado paras cervejas que passam pelo processo
de champenoise, pois o formato do copo evita que a
carbonatação se dissipe rapidamente. O nome é uma alusão
ao formato longilíneo, semelhante a uma flauta.
Copo de Weizenbier: A boca larga se justifica
pela grande intensidade aromática do estilo, e o
tamanho garante que todo o conteúdo da garrafa
seja servido no mesmo copo para homogeneização
do fermento. A altura propicia a visualização das
bolhas de gás carbônico que sobem pelo líquido,
trazendo espetáculo e tradição à bebida.
Copo Biersommelier: Este copo foi especialmente
desenvolvido para degustação profissional de cervejas. A
haste confere estabilidade, facilita o segurar, minimiza a
transferência de calor e padroniza a visualização da cor em
uma única profundidade. Seu corpo arredondado ajuda na
captura dos aromas. O estreitamento na parte superior ajuda
na manutenção dos aromas e na sustentação da espuma, e a
curvatura da borda auxilia na distribuição da cerveja por todas
as regiões da língua.
Todos esses argumentos nos provam que a geometria dos
copos tem realmente influência sobre a aparência, o aroma e
o sabor da cerveja. O serviço de uma cerveja especial no copo
correto traz mais vida, beleza, sabor e prazer ao consumo.
Opostamente aos brasileiros, que pouco cultivam esse
costume, os belgas são bastante tradicionais quando o
assunto é cultura de copos. É possível ver, em um único bar,
mais de uma dúzia de copos de formatos diferentes, cada um
sendo utilizado para seu respectivo estilo de cerveja. Isso é
plenamente compreensível quando paramos para pensar que
grande parte do prazer de se beber e comer bem é justamente
propiciado pela cerimônia e tradição. Coisa que os europeus
sabem preservar muito bem.

Os copos de cerveja podem ser produzidos por meio do
sistema de prensa ou sopro. Para entender melhor o processo
de fabricação, a Beer Life visitou uma fábrica de copos
soprados: a Ruvolo.
A produção é muito interessante e é feita através de areia
quartzoza e alguns produtos químicos. A areia utilizada nessa
fábrica não possui nenhum metal, pois passa entre imãs após
ser extraída das rochas, ficando 99,9% pura.
Esse processo é necessário porque o ferro, presente na
areia, prejudica a cor do vidro e interfere na transparência
do cristal. Os copos de cores esverdeadas ou azuladas feitos
pelo processo de sopro são geralmente produzidos com
sucata de vidros diversos, e por isso apresentam aparências
heterogêneas, pouca resistência e são mais baratos. Além disso, o uso de chumbo é proibido nos EUA e em alguns
países da Europa.
A preferência pela produção de copos soprados se deve ao
fato de que, através desse sistema, os copos ficam mais
finos e proporcionam uma diferença no palato no momento
da degustação da cerveja. “Em um copo mais fino é possível
degustar melhor a cerveja. Imagine beber a mesma cerveja
em um copo de requeijão”, comenta Antonio Ruvolo, um dos
proprietários da fábrica.
A areia é colocada no forno de fusão juntamente com
os produtos químicos e os cacos de vidros de copos
que quebraram durante a produção. O forno de fusão
está a 1480ºC. Depois de fundidos, a areia e os demais
componentes se tornam líquidos e passam para o forno de
trabalho, a 1250ºC.
Nesse momento, os funcionários retiram uma pequena
quantidade do líquido - que tem densidade de 2.7, similar
à consistência do mel - com uma haste oca chamada cana.
A ‘bolinha’ de ‘mel’ é colocada dentro da forma do copo e
soprada por meio da haste (cana).
A partir daí a peça passa a outro funcionário que faz o
‘pé’, deixando-a mais parecido com um copo. Depois ela é
colocada em uma máquina que, com o uso do fogo, recorta-a
e retira o excesso (corte do bocal). Finalmente, o objeto tornase
finalmente um copo que, ainda quente, é colocado no
forno de resfriamento, onde permanece durante duas horas e
meia até ser resfriado completamente - se ficar à temperatura
ambiente, quebra.
Depois de prontos, são aplicados manualmente os decalques
da marca da cerveja (a marca é colocada com decalque em
vez de silk pela maior possibilidade de cores). Os decalques
são umedecidos com água e então aplicados nos copos, que
depois de secos manualmente são colocados novamente
dentro de um forno a temperatura de 560 graus, durante
aproximadamente 2 horas. Dessa maneira, a logomarca se
fixará definitivamente.
O processo é muito interessante e leva um bom tempo até
ficar completamente pronto – desde a fusão da areia até o
empacotamento dos copos. No entanto, da retirada do líquido
até a colocação do copo na máquina de resfriamento, apenas
35 segundos e doze funcionários são necessários. (M.P.)
*Kathia Zanatta é Beer sommelier.