

A utilização de especiarias, frutas e madeira na cerveja especial
por Paulo Schiaveto*
Malte, água, lúpulo e levedura. A famosa receita é
a base para uma boa cerveja, propagada pela “lei
da pureza” alemã e seguida por inúmeros adeptos.
Na elaboração de uma cerveja, somente a variação
em torno desses ingredientes já nos traz uma boa
diversidade de aromas, cores e sabores. Mas há muito
mais para explorar.
Desde os primórdios da fabricação da cerveja,
quando constatamos a presença de especiarias
diferentes do lúpulo, até as cervejas de vanguarda das
microcervejarias e homebrewers atuais - passando pela
tradição “congelada” no tempo das cervejarias belgas
-, o uso de ervas, sementes, raízes, frutos, flores e
madeiras sempre esteve presente em diversas partes do
planeta.
Pode-se dizer que as primeiras “especiarias” já
aparecem desde a antiga bebida egípcia, fabricada a
partir de um tipo de pão de cevada e malte e a adição
de vinho de tâmaras e mel. No vinho de tâmaras estava
contida a levedura necessária para a fermentação,
motivo principal de seu uso - embora evidentemente,
naquela época, ainda não se conhecesse nada sobre
microorganismos como leveduras ou bactérias. Porém,
ao usar o fruto, aromas da própria tâmara permaneciam
no produto em maior ou menor grau (assim como os
aromas do mel, adicionado para ajudar na fermentação
da cerveja).
Desde essa remota época, a implacável curiosidade
humana segue fazendo perguntas do tipo: ‘E se eu
pusesse uma pitadinha de tempero aqui?’, ‘Será que
isto fica melhor com um pouquinho disto ou daquilo?
Será que fica bom?’.
Dos testes que os cervejeiros da antiguidade fizeram,
surgiram algumas excelentes e saborosas ideias.
Houve outras intragáveis, algumas até venenosas,
provavelmente logo abandonadas depois de observado
o estado em que ficou o atrevido cervejeiro após provar
sua criação.
Descontados os incidentes de percurso, muitas boas
ideias permaneceram através dos séculos, temperando até hoje cervejas de estilos como as Witbier belgas,
cervejas de trigo com adição de coentro e cascas
de laranja, ou mesmo as alemãs Berliner Weisse,
degustadas com adição de xaropes de frutas ou,
até recentemente, de plantas como a Aspérula
(Waldmeister ou Woodruff).
Gruit beer
Entre os séculos X e XV, seguramente o estilo de
cerveja mais comum era o que se pode chamar de
Gruitbier, traduzido como “cerveja de ervas”. Os
cervejeiros medievais, da Europa continental até as
ilhas britânicas, utilizavam ervas aromáticas similares às
que encontramos ainda hoje nos vermutes. O lúpulo só
seria adotado definitivamente como uma delas ao final
do século XIV.
Entre as ervas mais comuns dessa época estavam
a “Mil-Folhas” (Achillea millefolium), a “Sweet gale”
(Myrica gale), o Zimbro (Juniperus communis), o
Alecrim (Rosmarinus officinalis), a Lavanda (Lavandula
angustifolia) e a Artemísia ou Erva-de-São-João
(Artemesia vulgaris), além da citada “Waldmeister”.
As ervas eram usadas separadamente ou em grupo,
formando um Bouquet-Garni cervejeiro.
Os maltes eram então mais escuros e com aspecto
defumado, pois eram secos sobre a queima direta
de madeira. Sendo assim, o resultado final era uma
cerveja mais escura e bastante aromática. Como muitas
dessas ervas traziam, além dos aromas, certo amargor
e alguma adstringência, o resultado final era similar a
um “vermute” de malte.
Na Idade Média, com a popularização do uso
dessas ervas, em pouco tempo os senhores feudais
perceberam que era um bom negócio cobrar, daqueles
que tinham o direito de produzir cerveja, também pelo
“direito” de colher Gruit nas suas propriedades, e
logo a qualidade da cerveja tornou-se proporcional à
facilidade de acesso às ervas - e o termo Gruit virou um
sinônimo das taxas pagas por aquele direito. O lúpulo
- cujos primeiros registros escritos de cultivo são do
início do século VIII – tornou-se cada vez mais popular
como uma das ervas utilizadas, entre outros motivos,
pelo fácil cultivo e pelas propriedades “conservantes”
da cerveja. No início do século XVI, a lei da pureza da
Bavária (Reinheitsgebot) ratificou o uso do lúpulo como
“especiaria oficial” nessa região.


Além do lúpulo
Embora o lúpulo, com seus méritos, se espalhasse por toda
a Europa e posteriormente pelo mundo como “especiaria”
dominante, restaram alguns pequenos “nichos” onde outras
especiarias seguiam sendo usadas pelos cervejeiros. Em
parte da Holanda, no norte da França e notadamente na
Bélgica, os “temperos” da cerveja conviviam lado a lado com
o recém-chegado lúpulo. Alguns ingredientes, não tão antigos
como os do tempo das cervejas Gruit, às vezes chegando de
locais distantes como a África e a Ásia, foram incorporados
à lista de produtos encontrados na cozinha das cervejarias,
especialmente daquelas localizadas em mosteiros e abadias.
Bons exemplos dessas especiarias são as cascas de laranja
amarga e as sementes de coentro, ainda encontradas em
cervejas de trigo não-maltado do tipo Witbier, assim como em Tripels e Saisons, que por vezes utilizam outras especiarias
como o cominho e o anis, por exemplo.
Açúcares caramelizados em diferentes graus formam os
originais açúcares “candy”, os quais conferem seus aromas a
alguns estilos como Dubbel, Belgian Strong Dark Ale e outros.
O uso de frutas, à exceção do Egito Antigo, era menos
comum. Segundo as poucas referências históricas, pequenos
produtores na Alemanha, na França e na Inglaterra as
utilizavam, geralmente adicionadas na maturação das
cervejas. Entretanto, desde o início do século XX, frutas
como framboesa e cereja suavizam a acidez das Lambic
belgas, de fermentação espontânea, que são maturadas com
essas frutas em barris de carvalho por meses até que sejam
engarrafadas.


Alquimistas do sabor
Com a recente expansão do número de cervejarias artesanais em
todo o mundo – e da “explosão demográfica” dos homebrewers
- ingredientes antigos, do tempo das cervejas Gruit, foram
resgatados, e novas combinações entre as especiarias mais
antigas e outras “inventadas” atualmente surgiram. Um bom
exemplo é o uso de madeira para a maturação de certas
cervejas, método utilizado com mais frequência em alguns estilos
com bom suporte de malte na receita, como as Barley Wines e
Scotch Ales.
Com a criatividade cervejeira restabelecida, surgem a cada
momento novos produtos e, embora alguns deles sejam de
harmonia duvidosa, outros constituem verdadeiras pérolas de
combinação entre os aromas e sabores das “novas” especiarias
e aqueles originários do malte, do lúpulo e da fermentação. Os
cervejeiros artesanais americanos vêm se destacando nessa
harmonização, com excelentes resultados. Aqui no Brasil,
também já temos ótimos resultados obtidos por cervejeiros
artesanais e homebrewers.
Alguns exemplos das novas especiarias e seus usos, que
formam estilos de cervejas únicos e que valem a experiência da degustação: cerejas ou framboesas adicionadas às
Stouts ou Porters na maturação; cervejas com leve toque
de gengibre, como a belga De Graal Gember ou a Rugbeer
O’Driscoll, excelente exemplar de homebrewer brasileiro; café
adicionado a Stouts e Porters, como por exemplo na premiada
Coffee Porter brasileira Demoiselle; baunilha, nas cervejas
mais escuras, como em algumas Vanilla Porter americanas;
madeira, que adiciona aromas especiais em cervejas
maturadas em barris de carvalho tais como a Scotch Ale Innis
& Gunn 99, escocesa, ou nas Old Ale inglesas Theakston e
Strong Suffolk Vintage. Neste último caso, microorganismos
presentes nos antigos barris fazem parte da origem de parte
dos aromas.
Como se vê, há muito que explorar e, certamente, ao lado dos
estilos mais tradicionais, o uso harmonioso de especiarias,
frutas e madeira em cervejas especiais é bastante promissor.
Boa sorte aos novos alquimistas!
*Paulo Schiaveto é engenheiro de produção e mestre
cervejeiro formado em Louvain-la-Neuve, Bélgica. Presta
consultoria na área tecnológica de processos cervejeiros.
