

A nacionalização de um conceito europeu gerou uma das histórias de maior sucesso do mercado cervejeiro no Brasil.
por Maíra Porto
A união de um jovem e o empreendimento que surgiu de seu sobrenome é o ponto de origem de uma das maiores inovações no setor cervejeiro brasileiro. Eduardo Bier, mais conhecido como Dado Bier - apelido que deu nome à primeira microcervejaria do Brasil -, iniciou em 1992 o que hoje é uma história de sucesso.
Depois de muitas brincadeiras com o seu sobrenome – Bier significa cerveja em alemão –, Eduardo resolveu acreditar na proposta de financiamento do tio Jorge Gerdau e viajou à Europa e aos EUA para conhecer melhor o mercado no qual pretendia investir: o de cervejas.
Experiência internacional
Na Europa, conheceu um charmoso aspecto do mercado: consumir cerveja na fábrica. O modelo de produção em pequena escala trazia ainda baixos custos operacionais - o que, segundo Eduardo, seria necessário para competir no mercado brasileiro. Nos Estados Unidos, Dado visitou a produção de cerveja e se encantou com os processos de marketing e franchising existentes na potência norteamericana.
A junção desses dois modelos (europeu e norteamericano) levou à inauguração, em 1995, da primeira Dado Bier, em Porto Alegre. Tratava-se de um estabelecimento que mesclava o entretenimento americano com o modelo de produção europeu: bar, restaurante e cerveja consumida na fábrica. Tudo isso alinhado a shows de música que animavam o ambiente.
O primeiro brewpub se tornou rapidamente um grande sucesso, atraindo mais de mil pessoas todas as noites. Depois de 20 dias, não havia mais cerveja para vender. Enquanto isso, Dado Bier organizava seus recursos para expandir a capacidade de produção para 25.000 litros por mês.
A expansão
Ao mesmo tempo em que projetava a expansão da produção
do brewpub de Porto Alegre, Dado Bier planejava a abertura
de uma nova casa. Em novembro de 1996, foi inaugurado
em São Paulo o segundo Dado Bier. Esse empreendimento se
tornou o maior do mundo em capacidade de produção – 100
mil litros.
Sucesso garantido, o brewpub recebia aproximadamente 2,5 mil pessoas todas as noites - gente que buscava um ambiente aconchegante e que oferecia uma grande variedade: cerveja, jantar, pizza, sushi, música e pista de dança.
O sucesso foi tanto que, em dois anos, foi inaugurado o Dado Bier Rio de Janeiro. Nessa época, os três brewpubs empregavam mais de 600 pessoas diretamente e o investimento nos estabelecimentos ultrapassava R$ 15 milhões.
Infelizmente, dez meses depois, o Dado Bier São Paulo fechou devido a discordâncias com parceiros locais e à lucratividade mais baixa: “o primeiro brewpub foi inaugurado em 1995 no Rio Grande do Sul. Logo depois abrimos outro em São Paulo e mais um no Rio de Janeiro.
O negócio cresceu de tal maneira que algumas pessoas se incomodaram e resolveram agir. O negócio, que era fantástico, foi inviabilizado. Com isso tivemos que fazer um split do negócio, separando a cerveja da comida”, diz Eduardo.
Tributação
Na época, todas as casas eram consideradas brewpubs, pois a produção era realizada no mesmo local em que era servida. O sucesso foi tanto que mexeu com algumas empresas do setor, as quais agiram para que o projeto se tornasse inviável.
Todas as casas foram fechadas ou transformadas. Na verdade, cada uma delas era uma grande fábrica, onde as pessoas se divertiam, comiam, bebiam e dançavam. Segundo Eduardo, “a falta de um enquadramento de tributação para a produção e o comércio de cerveja no mesmo lugar gerava um IPI (imposto sobre produto industrializado) de 80% do preço de venda do produto. Por exemplo, se um litro custasse R$ 15, pagávamos R$ 12 de IPI”.
Para os proprietários do Dado Bier, a produção deveria ser tributada como chope e não como um produto industrializado. No entanto, só porque não estava dentro do barril, o governo achou que deveriam pagar IPI. Em janeiro deste ano, entrou em vigor uma nova legislação para a cobrança de imposto sobre os produtos industrializados. Com ela, os brewpubs serão tributados de forma diferente daquela feita na época. No mesmo litro de R$ 15, com a nova legislação o IPI será de apenas R$ 0,4087 - o que, segundo Eduardo, torna viável o investimento.
Essa mudança na cobrança de IPI levou Eduardo e seus sócios a analisarem a possibilidade de abrir um estabelecimento nos moldes dos existentes na década de 90. Afinal, segundo ele, “já que fomos os pioneiros no Brasil, por que não abrir uma nova casa?”.
Além disso, caso realmente decidam abrir um novo brewpub, há a possibilidade de instalarem um na capital paulista também, já que “a cidade nos acolheu de uma forma esplêndida. A casa deixou saudade nos clientes e achamos que seria viável abrir outra”, comenta Eduardo.