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História da cerveja


A discussão do surgimento da bebida alcoólica traz argumentos calorosos. Muitas pessoas dizem que o vinho surgiu primeiro, enquanto outras dizem que foi a cerveja. Além disso, quando a pergunta é onde a cerveja surgiu, as repostas são as mais variadas e envolvem principalmente os países famosos por sua produção – Alemanha e Bélgica. No entanto, isso não é verdadeiro, estando a história da cerveja fortemente entrelaçada com a origem da civilização.


Segundo alguns pesquisadores, mesmo antes de surgirem as primeiras aldeias na Mesopotâmia (região entre os rios Tigre e Eufrates e onde é hoje o Iraque), nossos ancestrais já consumiam um líquido alcoólico resultante da fermentação de cereais imersos em água.


Na verdade, especula-se que a cerveja, assim como o vinho, tenha sido descoberta acidentalmente como fruto da fermentação ocasional de algum cereal. Afirma-se ainda que tenha sido descoberta pouco tempo depois do surgimento do pão. Os povos existentes perceberam que a massa do pão, quando molhada, fermentava e ficava ainda melhor; surgindo assim uma espécie primitiva de cerveja – um "pão líquido".


Descoberta


Como já foi dito, a cerveja não foi inventada e sim descoberta acidentalmente. As pessoas começaram a se estabelecer em determinados locais, deixando de ser nômades e com essa mudança no estilo de vida de caça e coleta para um estilo mais sedentário, os homens passaram a contar com uma bebida derivada de cevada e trigo - as primeiras plantas intencionalmente cultivadas, surgindo a agricultura.


A adoção da agricultura e a domesticação dos cereais levaram ao surgimento da cerveja, já que esta era feita de cereais. Como os cereais eram uma fonte alimentar pouco interessante, porém bastante confiável, a coleta de grãos selvagens se tornou frequente por volta de 10 mil a.C. no Crescente Fértil. Embora inadequados para o consumo enquanto crus; se tornam comestíveis quando esmagados ou comprimidos e depois mergulhados em água.


No entanto, isso foi descoberto por acaso. Segundo estudiosos, alguém esqueceu uma tigela com grãos de cevada ao relento. Durante a noite choveu e a cevada fermentou, formando um mingau. Alguém provou e, sem dúvida nenhuma, gostou do sabor, e desde então a cerveja vem sendo produzida. Esse mingau, depois de alguns dias parado, tornava-se ligeiramente efervescente e agradavelmente embriagante à medida que a ação de leveduras selvagens no ar fermentava o açúcar, transformando-o em álcool; ou seja, o mingau virava cerveja.


Com o tempo descobriu-se que os cereais podiam ser armazenados para consumo por um longo tempo, e isso levou esses povos ao desenvolvimento de técnicas para colher, processar e armazenar grãos – uma das razões que também encorajaram as pessoas a permanecerem em um único local. Os grãos coletados provavelmente eram misturados em uma sopa, na qual eram jogadas pedras aquecidas pelo fogo. Os cereais contêm pequeninos grãos de amido, que quando colocados na água quente absorvem a umidade e depois ‘arrebentam’, soltando o amido na sopa e engrossando-a consideravelmente.


Além de engrossar a sopa, quando embebidos em água, os grãos começam a brotar com gosto doce. Nessa época, as fontes de açúcar eram poucas, sendo a doçura do grão ‘maltado’ altamente valorizada, estimulando o desenvolvimento de técnicas de preparação deliberada de malte, nas quais o grão era primeiro enxaguado e depois seco.


Os povos tornaram-se estáticos com essa descoberta e começaram a cultivar cevada e trigo intencionalmente, em vez de simplesmente coletaram grãos selvagens para consumo e estocagem. Há dezenas de teorias distintas para explicar a mudança do estilo de vida para a agricultura e os motivos pelos quais ela ocorreu naquele instante. A cerveja provavelmente foi um dos fatores que ajudaram a humanidade a se afastar da caça e da coleta, indo à direção da agricultura e de uma vida sedentária baseada em pequenos assentamentos. A ideia de que a cerveja contribuiu para o ímpeto dessa mudança na natureza da atividade humana (caça e coleta para agricultura) permanece controversa. Embora as origens dessa antiga bebida permaneçam inevitavelmente envoltas em mistérios e conjunturas, não há dúvida de que a vida diária dos egípcios e mesopotâmios era impregnada de cerveja.


Registro


Os sumérios e os babilônios foram os primeiros a deixar para as gerações posteriores um registro de como se fabricava cerveja. Um monumento conhecido como Pedra Azul, que se encontra hoje exposto no Museu do Louvre em Paris, data dos primórdios da civilização suméria, cerca de seis mil a.C. e contém inscrições sobre a produção. Conforme registros, esses povos dominavam os processos produtivos de mais ou menos 20 tipos de cervejas diferentes e o principal deles dava origem a uma bebida conhecida como Sikaru, utilizada para honrar os deuses e para alimentar os doentes.


Diversos estudos arqueológicos realizados na região do Nilo Azul, atual Sudão, comprovaram que em torno de sete mil a.C. os povos locais produziam uma bebida a partir de sorgo, a qual seria semelhante à nossa cerveja. Devido à natureza dos ingredientes – leveduras e grãos de cereais - a cerveja era produzida inicialmente pelos padeiros, que a deixavam a cevada de molho até germinar e, então a moíam grosseiramente e a moldavam em bolos, aos quais se adicionava a levedura. Os bolos, após parcialmente assados e desfeitos, eram colocados em jarras com água e deixados fermentar.


Os egípcios logo aprenderam a arte de fabricar cerveja e carregaram a tradição para o milênio seguinte, agregando o líquido à sua dieta diária. A expansão definitiva da cerveja se deu com o Império Romano, que se encarregou de espalhá-lo pelo seu vasto império. No século I d.C. a cerveja já era produzida pelos antepassados dos alemães e dos franceses e logo alcançou outras regiões do continente europeu, formando os primeiros berços de seu nascimento: Alemanha, Bélgica, Inglaterra, Irlanda e Holanda.


Como a escrita ainda não tinha sido inventada na época, não há registros escritos para atestar a importância social e ritual da cerveja no Crescente Fértil durante a Idade da Pedra, ou no período neolítico, entre nove mil e quatro mil a.C.. No entanto, já era possível identificar a cerveja nos pictogramas, a qual aparece em listas de pagamentos, documentos administrativos e listas de palavras escritas pelos escribas em treinamento, o que inclui dezenas de termos acerca do processo de preparo de cerveja. Neles já é possível identificar os passos de produção, o que mostra que a mais antiga receita do mundo é para a cerveja, segundo o livro ‘História do Mundo em 6 copos’ de Tom Standage.


Há também registros de que a cerveja era distribuída aos trabalhadores na época em que erguiam as pirâmides para se sentirem relaxados depois de um cansativo dia de trabalho. Isso comprova que os egípcios, de fato, começaram o hábito do happy hour, embora ele ainda não fosse conhecido com esse nome.


Os mosteiros


Na Idade Média, a produção e consumo de cerveja tiveram um grande impulso, devido à influência dos mosteiros, locais onde este produto era tecnicamente melhorado, além de produzido e vendido. Além disso, os mosteiros preservaram a técnica de produção durante os períodos de guerra.


Os conventos mais antigos a iniciarem a produção de cerveja foram os de St. Gallen, na Suíça, e os alemães Weihenstephan e St. Emmeran. Os beneditinos de Weihenstephan foram os primeiros a receber, oficialmente, a autorização profissional para fabricação e venda da cerveja, em 1.040 d.C. Com isso, esta é a cervejaria mais antiga do mundo ainda em funcionamento e é hoje conhecida, principalmente, como o Centro de Ensino da Tecnologia de Cervejaria da Universidade Técnica de Munique.


Nos mosteiros, as técnicas de fabricação iam sendo desenvolvidas, em busca de uma cerveja mais agradável ao palato e mais nutritiva. A importância da qualidade alimentar da cerveja era algo relevante para os monges, visto que era um produto que os ajudava a passar os difíceis dias de jejum - períodos que caracterizavam-se pela abstinência em termos de comida sólida, mas durante o qual, podiam ingerir líquidos. Isso só os incentivou a produzir mais e melhor cerveja, chegando ao ponto de se criarem pequenas tabernas nos mosteiros onde era cobrada uma pequena taxa para que as pessoas pudessem experimentar a cerveja de alta qualidade que ali se produzia. Em termos técnicos, os monges deram uma maior importância ao uso do lúpulo, substância que tornava as cervejas mais frescas devido ao amargor natural e que, por outro lado, ajudava na sua conservação.


Esse fato pode ser considerado um dos mais importantes no aperfeiçoamento e conservação da cerveja. Ao dosarem a quantidade de malte e lúpulo, passaram a produzir uma cerveja com pouco álcool para consumo diário e uma cerveja mais pesada e alcoólica para ocasiões festivas. Hoje, as variedades dessa planta estão presentes na maioria das cervejas conhecidas no mundo.


Uma contribuição fundamental da produção cervejeira monástica foi o emprego de algumas sementes e ervas aromáticas que também atuavam como bons conservantes da cerveja. Esta indústria teve tal sucesso que chamou a atenção dos nobres e soberanos, que passaram a cobrar pesadas taxas sobre a venda deste produto.


Aspecto Social/Econômico


A cerveja foi durante muito tempo o núcleo da vida social, religiosa e econômica, além de ter sido a principal bebida das primeiras civilizações.


Desde os primórdios, parece que a cerveja tinha uma função importante como bebida social. No período sumério, o advento da cerâmica significava que ela já podia facilmente estar sendo servida em copas individuais. No entanto, o fato de o bebedor de cerveja ser amplamente retratado usando canudo, que era usado para beber a cerveja e deixar no recipiente os pedaços, sugere que este ritual persistiu mesmo quando os canudos não eram mais necessários, devido ao ato de partilhar a mesma bebida. Hoje, quando se toma alguma bebida alcoólica em uma ocasião social, o tinir dos copos simbolicamente os reúne em um único recipiente de líquido a ser compartilhado.


A cerveja era consumida por todos: ricos e pobres, homens e mulheres, adultos e crianças, desde o topo da pirâmide social até a base, e era verdadeiramente a bebida definitiva dessas primeiras grandes civilizações.


Os textos sumérios revelam-nos a existência de tabernas - estabelecimentos que preenchiam uma função social para além do fornecimento de comida e bebida (não apenas cerveja, mas também álcool de tâmaras fermentadas), pois eram locais de reunião e lazer.


A cerveja fazia parte da vida dos egípcios e mesopotâmicos desde o berço até a sepultura e durante muito tempo foi usada como forma de pagamento. Além disso, as pessoas se cumprimentavam umas às outras com a expressão “pão e cerveja”.


Brindar à saúde de alguém antes de tomar a cerveja é um vestígio da crença antiga em suas propriedades mágicas. Sujeita aos imperativos naturais, a cerveja era produzida entre Setembro e Abril, os meses frios do ano. À medida que a sua importância cresceu; a produção e venda foi sendo alvo de vários regulamentos, chegando mesmo a ser criado um fiscal que testava e sancionava a qualidade da cerveja.


No Egito, assim como na Mesopotâmia, os impostos na forma de grãos e outras mercadorias eram entregues ao templo e depois redistribuídos com o propósito de financiar obras públicas. Isso significa que em ambas as civilizações a cevada e o trigo, e suas formas processada sólida e líquida – pão e cerveja – tornaram-se mais do que apenas itens alimentícios básicos: eram meios convenientes e frequentes de pagamento e moeda. Funcionários importantes recebiam mais cerveja não porque bebessem mais: tendo bebido sua quantidade regular, ficavam com sobras para gratificar mensageiros e escribas e pagar outros trabalhadores. Além disso, o uso do pão e da cerveja como meios de pagamento ou moeda significava que tinham se tornado sinônimo de prosperidade e bem-estar.


Aspecto Religioso


Como a cerveja era um presente dos deuses, existem muitas histórias sobre a ‘descoberta’ dela. Os egípcios acreditavam que ela fora acidentalmente descoberta por Osíris, o deus da agricultura e rei da vida após a morte. “Um dia ele preparou uma mistura de água e grão germinado, mas esqueceu-se dela e deixou-a ao sol. Retornou mais tarde e descobriu que o mingau tinha fermentado; decidiu bebê-lo e ficou tão satisfeito com o resultado que passou o conhecimento para a humanidade”.


Outras culturas consumidoras dessa bebida contam histórias semelhantes. Como ela era um presente dos deuses, era comum apresentá-la como uma oferenda religiosa. Os incas ofereciam sua cerveja, chamada chicha, ao sol nascente numa copa dourada e derramavam-na no solo ou cuspiam de volta seu primeiro gole, como uma oferenda aos deuses da Terra; os astecas ofereciam sua pulque a Mayahuel, a deusa da fertilidade. Na China, as cervejas feitas de milho miúdo e arroz eram usadas em funerais e outras cerimônias. A prática de levantar um copo para desejar boa saúde à alguém, um casamento feliz, uma viagem tranquila para a vida após a morte ou então celebrar a finalização bem-sucedida de um projeto é o eco moderno da antiga ideia de que o álcool tem o poder de invocar forças sobrenaturais.


A cerveja também era importante na antiga cultura egípcia, na qual há referências que remontam a um passado quase tão distante quanto o sumério, sendo mencionada em documentos da terceira dinastia, que começou em 2.650 a.C.. Uma análise da literatura egípcia descobriu que a cerveja, cuja palavra correspondente era hekt, era mencionada mais vezes do que qualquer outro item alimentar. Como na mesopotâmia, pensava-se que a cerveja tinha origens antigas e mitológicas, e ela também aparece em orações, mitos e lendas.


Além disso, os egípcios acreditavam que a cerveja devia ser oferecida aos deuses na passagem para o mundo dos mortos, pois seu bem-estar na vida após a morte dependia de uma oferta adequada de cerveja e pão. Arqueólogos que faziam escavações nas tumbas dos faraós encontraram cestos e mais cestos lotados de cereais utilizados na produção de cerveja datados de 5.400 a.C.


Tanto os mesopotâmicos, como os egípcios, entendiam a cerveja como uma bebida antiga e divina que dava base à sua existência, fazia parte de sua identidade cultural e religiosa e tinha grande importância social. Em ambas as culturas, a cerveja era o ingrediente básico sem o qual nenhuma refeição parecia completa.


Aspecto Medicinal


A cerveja, para além de bem alimentar, servia também como remédio para certas doenças. Um documento médico datado de 1.600 a.C. e descoberto nas escavações de um túmulo descreve cerca de 700 prescrições médicas, das quais cem contêm a palavra cerveja.


Como se sabe, a Idade Média era uma época onde as práticas sanitárias eram muito ruins, sendo mais seguro beber cerveja do que água. De fato, o processo de produção fazia com que muitas das impurezas fossem filtradas, portanto, quem pudesse fazer a troca da água pela cerveja raramente hesitava.


Os antigos egípcios identificavam a cerveja como algo tão próximo as necessidades da vida, que a expressão ‘pão e cerveja’ queria dizer sustento em geral. Tanto é que uma inscrição egípcia encorajava as mulheres fornecerem aos seus filhos em idade escolar duas jarras de cerveja e três pequenos pedaços de pão diariamente, a fim de assegurar seu desenvolvimento saudável.


A cerveja também tinha um vínculo mais direto com a saúde, pois tanto os mesopotâmicos como os egípcios usavam-na medicinalmente. Uma tabuleta datada de cerca de 2.100 a.C., contém uma farmacopéia ou lista de receitas médicas baseadas na cerveja. É o registro mais antigo que ainda sobrevive do emprego do álcool na medicina. No Egito, o uso da cerveja como sedativo moderado foi reconhecido, e foi também a base para várias preparações medicinais de ervas e especiarias.


Evolução da produção


Até praticamente o fim da Idade Média, a cerveja européia dividia-se pelo emprego de distintos aromatizantes e plantas silvestres como o mirto generalizado na região escandinava, mas proibido na Inglaterra; ou o gruyt (um composto de ervas aromáticas) utilizado em outras regiões do norte da Europa. O lúpulo conhecido, sobretudo na Europa central, viria a destacar-se como aromatizante de superior qualidade e por suas propriedades anti-sépticas; porém, deu seus primeiros sinais de existência apenas no século VIII, na Boemia e na região de Hallertau, na Baviera alemã (atuais grandes regiões produtoras).


Em 1516, as guildas (associações) bávaras, tentando precaver seus interesses, pressionaram as autoridades para a criação de uma lei que defendesse a produção de cerveja de qualidade. De fato, utilizavam-se ingredientes muito estranhos para aromatizar as cervejas como, por exemplo, folhas de pinheiro, cerejas silvestres e ervas variadas. Foi assim que o Duque Wilhelm IV da Baviera criou a Reinheitsgebot - lei de pureza. Segundo essa lei, se tornou ilegal o uso de outros ingredientes no fabrico de cerveja que não fossem água, cevada e lúpulo (é de salientar que nesta época ainda não se conhecia e utilizava conscientemente a levedura). Resolução essa que foi muito importante para a produção de cerveja na Alemanha.


A Reinheitsgebot levou ao crescimento das exportações e fez com que muitas cidades alemãs ficassem famosas. Uma das marcas mais conhecidas da época e que ainda hoje produz cerveja é a Beck's, criada em 1553. Em Munique, uma das mais conhecidas cidades cervejeiras da Alemanha, na época, já eram elaboradas as famosas Brauerei Lowenbrau (1383), Spaten-Franziskaner-Brau (1397) e a Hacker-Pschorr Brau (1417).


Ao longo dos séculos XVI e seguintes, a exportação de cerveja continuou a ganhar crescente importância. No entanto, foram necessárias duas invenções para trazerem a produção de cerveja para a Era Moderna: a primeira foi a máquina a vapor, inventada por James Watt e a segunda foi a refrigeração artificial, ideia de Carl von Linde. Nessa altura, já estava cientificamente provado que a produção de boa cerveja dependia da existência de determinadas temperaturas. Dado que essas temperaturas ocorriam essencialmente no inverno, a invenção de von Linde permitiu que se produzisse e consumisse cerveja ao longo de todo o ano.


No início do século XX e durante a 1ª Guerra Mundial, houve uma diminuição significativa no número de indústrias produtoras de cerveja, devido ao aumento da competição que proporcionou fusões e aquisições. Além disso, o início da 1ª Guerra levou à escassez de matérias-primas e mão-de-obra, o que levou muitos industriais a apostar na mecanização de suas empresas. Para agravar a situação, a Proibição e a Grande Depressão limitaram o consumo desta bebida, provocando a falência de inúmeras fábricas.


A luz no fundo do túnel para as cervejeiras só apareceu com o fim da Proibição em 1933. No entanto, apenas 160 indústrias tinham sobrevivido nos EUA a este difícil período, e para piorar, essa época de crescimento foi abruptamente interrompida com o início da 2ª Guerra Mundial.


Passado mais este período, assistiu-se a um aumento gradual na produção e consumo de cerveja, tendo a Budweiser sido a primeira marca a ultrapassar os 10 milhões de barris por ano, em 1966. As fusões e concentrações continuaram a aumentar.


Hoje em dia, a indústria cervejeira pode ser caracterizada por duas grandes tendências: a primeira, é representada pelas grandes fusões entre gigantes cervejeiros, que criam empresas cada vez maiores e com vendas impressionantes. A segunda é representada por pequenas e médias empresas que desenvolvem produtos para apreciadores e baseadas nas tradições dos locais onde se encontram implantadas.


Invenções tecnológicas


A máquina a vapor de James Watt, inventada em 1765, permitiu a industrialização e racionalização da produção cervejeira. As primeiras cervejeiras que utilizaram máquinas a vapor chamavam-se a si mesmas de Steam Beer Breweries, sendo que ainda hoje subsistem fábricas com esta designação.


Em 1830, Gabriel Sedlmayr e Anton Dreher desenvolveram o método de produção que daria origem às Lagers, sendo que doze anos depois seria elaborada a primeira Pilsner na Boemia. Este gênero de cerveja teve tanto sucesso que rapidamente se espalhou por todo o lado, com especial destaque para o Novo Mundo.


A descoberta da refrigeração artificial (Teoria de Geração de Frio Artificial), por Carl Linde, também contribuiu para o aumento da produção. As primeiras tentativas de refrigeração foram efetuadas em Munique, o que fez com que a cerveja fosse um dos primeiros produtos a beneficiar-se desta evolução.


Para, além disso, o desenvolvimento das estradas de ferro possibilitou uma maior expansão do comércio deste produto. Por curiosidade, os primeiros bens a serem transportados na abertura da primeira linha de comboios na Alemanha, entre Nuremberga e Furth, foram dois barris de cerveja.


Em 1876, outro acontecimento marcou a indústria cervejeira, assim como a vida do próprio Homem. Os estudos de Louis Pasteur sobre o fermento e os microorganismos possibilitaram o início da preservação dos alimentos devido ao método da pasteurização. Tal descoberta deu um forte ímpeto às cervejeiras, para além de ter possibilitado a preservação de cerveja de um modo mais eficiente. Até à descoberta de Pasteur, a fermentação do mosto era natural o que, normalmente, trazia prejuízos aos fabricantes. O notável cientista francês convenceu os produtores a utilizarem culturas selecionadas de leveduras para fermentação do mosto, para manter uma padronização na qualidade da cerveja e impedir a formação de fermentação acética. Pasteur descobriu que eram os microorganismos os responsáveis pela deterioração do mosto e que esses poderiam estar no ar, na água e nos aparelhos, sendo estranhos ao processo.


Graças a esse princípio fundamental, limpeza e higiene tornaram-se os mais altos mandamentos da cervejaria. Para além do mais, o estudo dos diferentes fermentos fez com que aparecessem novos tipos de cerveja, com novos aspectos e sabores. Essas inovações levaram à expansão do consumo.


Igualmente importante foi o trabalho de Emil Christian Hansen, que aproveitando o desenvolvimento do microscópio, descobriu a existência de células de levedura de baixa fermentação, diferentes das leveduras de alta fermentação, únicas conhecidas na época. Ele isolou a célula, que foi multiplicada sob cultura pura. Como a levedura influencia fundamentalmente o sabor, esta descoberta permitiu a constância do sabor e qualidade.


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História da cerveja no Brasil


Dificuldades iniciais


Os colonizadores portugueses não eram consumidores de cerveja, nem os habitantes originais do Brasil. Por isso, acredita-se que essa bebida tenha chegado ao país no século XVII, entre 1634 e 1654, por meio da Companhia das Índias Ocidentais. Os holandeses, por sua vez, eram grandes apreciadores da cerveja e tinham uma boa organização política, bem como de suprimentos, cultura e lazer. Com a saída deles do país em 1654, a cerveja também desapareceu por um século e meio, reaparecendo apenas no final do século XVIII. Durante o período colonial, os portos eram fechados aos navios estrangeiros, sendo abertos somente quando a família real portuguesa veio para o Brasil. Antes disso, a cerveja consumida no país era contrabandeada por Salvador, Rio de Janeiro e Recife.

A partir de 1808, muitos comerciantes estrangeiros se instalaram no Brasil, trazendo da Europa, entre outros produtos, a cerveja. Nessa época, a Inglaterra era a maior produtora de cerveja e tinha muita influência sobre Portugal, o que explica porque a cerveja inglesa dominou o mercado brasileiro até cerca de 1870.


No final do século, a importação voltou a crescer, mas a preferência passou a ser pela cerveja alemã, que vinha em garrafas e em caixas, ao contrário das inglesas, que vinham em barris. O período áureo da cerveja alemã não foi longo, pois, em 1896, o governo quadruplicou os impostos de importação e, em 1904, limitou a importação. Com esses empecilhos e com o desenvolvimento da indústria nacional de cerveja, a importação praticamente cessou no início do século XX.


Surgimento da produção brasileira


A cerveja é um produto de longa tradição no Brasil, havendo referências a ela em documentos que datam do século XVII. No entanto, sua ascensão foi demorada e tortuosa, pois, no início do século XIX, a cachaça e o vinho eram as bebidas alcoólicas preferidas pela população. Nessa época, a cerveja já era produzida, mas seu consumo ainda não era generalizado, permanecendo como uma produção caseira e típica de comunidades de imigrantes.


No final da década de 1820, Carl Seidler, oficial alemão, encontrou no Rio Grande do Sul imigrantes alemães com conhecimento para fabricar cerveja de forma lucrativa. Nos anos 1860 e 1870, houve um grande aumento da produção de cerveja, que se manteve até a I Guerra Mundial, quando não era mais possível obter cevada e lúpulo de procedência alemã e austríaca. Como esse abastecimento de cevada e lúpulo sempre foi problemático, os cervejeiros recorreram a outros cereais, como arroz, milho, trigo, entre outros, o que já era uma prática corrente em vários países.


No Rio Grande do Sul, no final do século XIX, os imigrantes de origem alemã e italiana produziam sua cerveja de maneira caseira e a comercializavam em “vendas cervejeiras” como uma atividade secundária. Calcula-se que, nessa época, havia cerca de uma centena desses estabelecimentos.


O consumo cresceu gradualmente e, em 1836, surgiu a primeira notícia sobre a fabricação de cerveja no Brasil. Publicado no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro em 26 de outubro, o anúncio dizia o seguinte: "Na Rua Matacavalos, número 90, e Rua Direita número 86, da Cervejaria Brazileira, vende-se cerveja, bebida acolhida favoravelmente e muito procurada. Essa saudável bebida reúne a barateza a um sabor agradável e à propriedade de conservar-se por muito tempo". Esse foi o início do desenvolvimento de cerveja em um nível mais comercial.


O anúncio mostra que havia um mercado que crescia de maneira suficiente para incentivar a produção nacional, embora as informações sobre a qualidade da bebida demonstrem que ela ainda era relativamente pouco conhecida. Havia nessa época uma produção ainda artesanal, cuja precariedade gerava alguma desconfiança. Para impedir que as rolhas saltassem devido ao pouco controle sobre os níveis de gás da bebida, os cervejeiros brasileiros costumavam amarrá-las ao gargalo com barbante, o que deu origem à expressão depreciativa “cerveja barbante” ou “cerveja marca barbante”, termo que se generalizou para qualquer produto de má qualidade.


Ainda assim, havia público para as marcas locais, todas de pequeno porte e concorrentes menores das marcas européias, trazidas desde a chegada da família real. Em 1846, Georg Heinrich Ritter instalou uma pequena linha de produção de cerveja na região de Nova Petrópolis, Rio Grande do Sul, criando a marca Ritter, uma das precursoras do ramo cervejeiro. A década de 1840 foi um período de grande desenvolvimento na fabricação e no consumo de cerveja. Diversas cervejarias seguiram o mesmo caminho da cerveja Ritter, como a empresa Vogelin & Bager, que abriu uma cervejaria no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, em 1848.


Em 1853, a Cervejaria Petrópolis foi aberta pelo espanhol Carlos Rey. Em seguida, em 1854, o colono Henrique Kremer fundou a fábrica que deu origem à Cervejaria Bohemia, a mais antiga ainda existente no Brasil. O nome Companhia Cervejaria Bohemia foi estabelecido apenas em 1898, quando a empresa produzia as cervejas Bohemia, Viena, Quitandinha, Petrópolis, Bock Malte e Bola Preta, chope claro e escuro, além de alguns refrigerantes.


As primeiras cervejarias industrializadas do país surgiram nas décadas de 1870 e 1880, tendo como pioneira a cervejaria de Friederich Christoffel, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Em 1878, ela já produzia mais de um milhão de garrafas. Em 1880, foram instaladas no Rio de Janeiro as primeiras máquinas compressoras frigoríficas, que produziam gelo artificial e propiciavam um ambiente refrigerado, o que representou um grande avanço na indústria cervejeira do país. Com essa tecnologia, foi possível produzir uma cerveja de baixa fermentação, uniforme e límpida, como as das regiões de Bavária e Boemia.


Na década seguinte, surgiram mais industriais interessados em investir nesse negócio promissor. Como exemplo, pode-se citar a Fábrica de Cerveja Nacional de Alexandre Maria VillasBoas & Cia, na capital do Rio de Janeiro, a Fábrica de Cerveja de Thimóteo Durier, em Petrópolis, Rio de Janeiro, a Fábrica de Jacob Nauerth na capital do Rio de Janeiro, a Fábrica de Cerveja Guarda Velha de Bartholomeu Correa da Silva, também no Rio de Janeiro, e a Fábrica de Cerveja de Friederich Christoffel, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.


A enorme quantidade de fábricas e cervejarias que surgiu entre os anos 1840 e 1880 permitiu a expansão do consumo de cerveja, fato que levou à popularização da cerveja no Brasil. Nesse período, o Rio de Janeiro já era uma cidade comparável a outras da Europa, possuindo um mercado consumidor relevante. A venda de cerveja era feita no balcão das próprias cervejarias. As entregas em zonas comerciais de bairros próximos eram feitas por carroças.


Crescimento do mercado


Em 1882, foi estabelecida a sociedade entre Louis Bucher e Joaquim Salles, que deu origem à marca que ainda hoje tem um papel de grande relevância na indústria cervejeira brasileira: a Antarctica. Esse nome é derivado de um matadouro de suínos de propriedade de Joaquim Salles que existia no local e possuía uma máquina de fazer gelo. Esse fato foi de enorme importância, pois as cervejas produzidas pelas fábricas não tinham nenhuma marca e eram vendidas diretamente dos barris; as poucas cervejas engarrafadas não possuíam rótulo próprio. O passo seguinte dessa sociedade foi a criação da "Antarctica Paulista - Fábrica de Gelo e Cervejaria", empresa que se dedicava à produção de gelo e produtos alimentícios.


No entanto, essa marca não foi a única do mercado por muito tempo. Em 1888, um imigrante suíço, Joseph Villiger, acostumado com o sabor das cervejas europeias e inconformado com a má qualidade das cervejas fabricadas no Brasil, resolveu abrir o seu próprio negócio, começando a produzir cerveja em casa. Em 6 de setembro, foi registrada a "Manufactura de Cerveja Brahma Villiger & Companhia", fundada pelo próprio Villiger, por Paul Fritz e por Ludwig Mack, e a Cerveja Brahma foi lançada comercialmente. A empresa foi inaugurada com uma produção diária de 12 mil litros de cerveja e 32 funcionários.


Iniciou-se nessa época uma luta que persistiu até há pouco tempo. O grande crescimento das duas empresas foi praticamente imediato. Em 1889, foi publicado o primeiro anúncio de uma marca de cerveja brasileira: "Cerveja Antarctica encontra-se à venda na Rua Boa Vista, 50 A", no jornal "A Provincia de São Paulo" (atualmente “O Estado de São Paulo”). No ano seguinte, a Antarctica aumentou o quadro de funcionários para 200 e a capacidade de produção passou para 40 mil hectolitros/ano. Esse desenvolvimento levou a empresa a se transformar em uma sociedade anônima, com 61 acionistas, chamada "Companhia Antarctica Paulista SA".


Dois desses acionistas, João Carlos António Zerrener e Adam Ditrik von Bullow, eram sócios de uma empresa de importação em Santos, o que facilitou a compra de máquinas e matéria-prima para a cervejaria. Contudo, em 1893, a Antarctica se encontrava à beira da falência, sendo comprada por sua principal credora, a empresa Zerrener, Bullow & Cia.


Ao fenômeno do rápido surgimento de muitas marcas no mercado, seguiu-se o desaparecimento de muitas delas. Por isso, a maioria não chegou aos dias de hoje ou mudou de proprietário. Como exemplos, podemos citar as cervejas Bock e Victória, da Cervejaria Feldmann de Blumenau, Santa Catarina, que não existem mais; a cerveja Caracu, inicialmente pertencente à Cervejaria Rio Claro, no estado de São Paulo, que hoje faz parte do portfólio da AmBev; a Cervejaria Bavária, localizada na Moóca, que foi adquirida em 1904 pela Antarctica, onde foi instalada a sede do grupo.


No entanto, a Brahma não parava de crescer e, em pouco mais de uma década, registrou quase uma dúzia de marcas, como Bier, Crystal, Pilsener, Franziskaner-Brau, Munchen, Guarany, Ypiranga, Bock-Ale, Brahma Porter, entre outras. A expansão da empresa deve-se também a aquisições e fusões com outras empresas. Em 1904, surgiu a Companhia Cervejaria Brahma, resultante da união entre a Georg Maschkle & Cia., a Cervejaria Brahma, a Preiss Haussler & Cia. e a Cervejaria Teutônia (produtora, entre outras, das cervejas Excelsior, Teutonia e Munchen-Bock).


A notoriedade da Brahma também foi obtida através de fortes campanhas publicitárias e do patrocínio que oferecia a bares, restaurantes e artistas. Além da importação de novos equipamentos, a melhoria geral da qualidade de seu maquinário lhe proporcionou uma boa imagem junto aos consumidores.


Nesse período, a produção de chope em tonéis chegou aos seis milhões de litros e a distribuição contava com nove depósitos no centro do Rio de Janeiro. Durante os primeiros anos do século XX, esse crescimento contínuo foi acompanhado do lançamento de novas marcas, como ABC, Bock-Crystal, Bramina, Bull Bock, Rainha e Colombo.


Pode parecer surpreendente o grande número de marcas lançadas por uma única empresa, mas o mercado cervejeiro do início do século passado encontrava-se em grande ebulição, com a fundação de inúmeras indústrias por todo o Brasil. Além disso, as empresas registravam várias marcas diferentes a fim de assegurar uma determinada fatia do mercado.


Em 1903, dez anos depois de sua criação, a Cervejaria Mora de Petrópolis, Rio de Janeiro, tornou-se a Fábrica de Bebidas Cascata, produtora das cervejas Cascata Preta e Cascata Branca, através de métodos artesanais. Em 1906, a Cervejaria Kuhene lançou a Progresso 1906, cerveja criada com o objetivo de comemorar a inauguração da estação ferroviária de Joinville, Santa Catarina. No ano seguinte, a fábrica de cerveja Caetano Carmignani, em Pirassununga, São Paulo, elaborou a cerveja preta Cavalinho após adquirir novas máquinas e equipamentos. Em 1912, é inaugurada a Cervejaria Tripolitana, fabricante da Tripolitana, situada em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo. Em 1913, já existiam 134 cervejarias apenas no estado do Rio Grande do Sul.


A I Guerra Mundial (1914-1918) não trouxe grandes alterações ao panorama cervejeiro do Brasil. O fato de a guerra se desenrolar principalmente na Europa fez com que a importação de cerveja sofresse uma queda, embora o consumo e a produção tenham mantido níveis bastante elevados e em franco crescimento. Notou-se apenas uma leve redução na quantidade de lançamentos de novas marcas no mercado. A Brahma lançou a Carioca, a Fidalga, a Suprema e a Malzbier e a Companhia Cervejaria Paulista passou a distribuir a Níger, a Poker e a Trust.


A década de 1910 não apresentou alterações substanciais em relação às empresas e ao mercado cervejeiro brasileiro. Durante esse período, a Brahma consolidou-se como a cervejaria mais influente do setor, adquirindo, em 1921, a Cervejaria Guanabara, uma das mais antigas do país, e confirmando a sua vocação expansionista.


Seu crescimento era combatido por outras fábricas e marcas por meio do lançamento de novos produtos e de campanhas publicitárias. Uma das empresas que se empenhou nessa luta foi a Companhia Cervejaria Adriática, que publicava anúncios nos jornais com relativa frequência. Em um desses anúncios, mencionou a entrada no mercado de 15 mil dúzias de Adriática Pilsen, Adriática Poschorr, Operária e Primor, e da muito afamada Cachorrinha.


Após esta introdução sobre os primórdios da fabricação e do consumo de cerveja no Brasil, conheça as marcas que assumiram a liderança do mercado, entrando na vanguarda tecnológica do setor.


Fonte: Cerveja do mundo (www.cervejasdomundo.com); Josimar Melo, ‘A Cerveja’; Tom Standage, ‘A História do Mundo em 6 copos’; e Sergio de Paula Santos, ‘Os primórdios da Cerveja no Brasil’.

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