MERCADO BRASILEIRO DE CERVEJA
por Cilene Saorin
Recentemente a sigla BRIC - iniciais de Brasil, Rússia, Índia e China - países que fazem parte de um grupo importante de economias emergentes - tem sido sempre mencionada quando se fala em negócios globais. Uma das mais espetaculares consequências da ascensão do BRIC será a rápida inclusão de novos consumidores em proporções nunca vistas antes na história dos negócios. Sua emergência em curto prazo deve ter um impacto explosivo na demanda de uma escala de produtos e de serviços, incluindo a cerveja.
Atualmente há maior concentração de mercado nas mãos de poucas companhias cervejeiras. Uma febre de aquisições, fusões e parcerias vem acontecendo nos últimos anos, permitindo que os grandes mordam a maior fatia possível do mercado. Em paralelo, microcervejarias, pequenos e médios fabricantes veem oportunidades nos mercados locais e apostam nos consumidores que se identificam com a cerveja produzida em sua região.
No geral este cenário descrito mundialmente também se reflete no Brasil - um segmento marcado por nuances e complexidades em que nada importa mais do que o conhecimento da dinâmica do mercado, da estratificaçao e de conhecimento dos nichos que o constituem para construir estratégias vencedoras.
Brasil no mundo
Atualmente o Brasil está na quinta posiçao em termos de produçao anual com 10,34 bilhões de litros ao ano em 2007, ficando atrás da China com 27,0 bilhões de litros ao ano, EUA 23,6, Alemanha com 10,5 e Rússia 10,0.
Entretanto, em termos de consumo per capita o Brasil alcançou 56 litros em 2007, número distante da República Checa com aproximadamente 160 litros. Na América Latina, o Brasil é líder e representa uma parte muito importante da produçao anual total - aproximadamente 60%.
Brasil e sua evoluçao histórica
O consumo de cerveja no Brasil apresentou crescimento quase constante durante a década 1985-95. Com o Plano Real em 1994 e o aumento consequente da capacidade de compra da população, o mercado de cervejas recuperou consumidores e incorporou novos - principalmente do tradicional mercado da cachaça.
A produção retomou a trajetória de crescimento correspondente ao aumento de renda, alcançando, assim, produçao de 80 milhoes hL e o consumo per capita de 50 litros em 1995. Após este período, a década seguinte (1995-2005) não apresentou o mesmo bom desempenho. Com níveis de consumo praticamente estagnados, a variaçao entre 1995 e 2004 foi de somente 6%, aumentando a produçao de 80 a 85 milhoes hL e o consumo per capita parado ao redor de 48 L.
Perspectivas no Brasil
Fatores demográficos: disparidades regionais no consumo de cerveja, mudanças na pirâmide etária com crescimento da população adulta (média de 2% ao ano) e baixo consumo per capita de cerveja.
Fatores Econômicos: estabilidade de preço (estabilidade de câmbio e consequente baixa pressão nos custos de produção e importação, aumento da competitividade e retomada do desenvolvimento econômico), despolarização do desenvolvimento econômico (o crescimento da indústria do turismo no nordeste e progresso das fronteiras agrícolas no centro-oeste e norte), além de aumento da renda disponível para consumo (mudanças estruturais de renda e emprego).
Fatores culturais: Somado aos fatores demográficos e econômicos, mudanças no hábito de consumo, motivadas por ações de redesenho da imagem da cerveja, como a disseminação da cultura cervejeira e a sofisticação de consumo pela experiência gastronômica.
Esses fatores podem permitir projeções sólidas de crescimento do mercado de cervejas no Brasil em taxas médias de 4,5% ao ano no longo prazo, tendo como referência o crescimento de 1,5 vezes o PIB (estimado em 3% ao ano).
Em curto prazo, é esperada uma projeção de crescimento de consumo devido ao aumento da população com mais de 18 anos, incluindo as mulheres como consumidoras e o aumento da renda disponível. Como resultado, a tendência é ter mais consumidores em busca de novidades, demandando cervejas de diferentes estilos e rótulos.
Consumo de cerveja no Brasil
O perfil sensorial da cerveja no Brasil tem sido gradualmente modificado. O resultado é uma cerveja mais leve e mais refrescante, menos encorpada, menos amarga e com menor teor alcoólico. Essa medida foi adotada como tendência pelas principais cervejarias no Brasil, fazendo uma combinaçao entre o perfil de cerveja europeu e americano.
A idéia do 'padrão de cerveja' deve ser mantida uma vez que esse perfil representa 94% do mercado nacional. A variação no consumo de cervejas standard e premium em diferentes regiões do país refletem aspectos de renda disponível, distribuição e informação.
Geralmente, cervejas premium sao mais consumidas nas regiões Sul e Sudeste. Já a cerveja em barril (dito popularmente chope), tem 50% do consumo concentrado nessas duas regiões devido à distribuiçao e aos investimentos nos pontos de venda.
É previsto que as cervejas especiais no Brasil tendam a uma taxa de crescimento mais alta se comparada às taxas previstas para o mercado geral (em 2007, cervejas especiais cresceram 12% enquanto cervejas em geral, 6,7%).
Algumas cervejarias já promovem planos de marketing relacionados à sofisticação do consumo de cerveja. Basicamente o foco é a promoção da cultura cervejeira e a apresentação de diferentes estilos com a finalidade de atrair novos nichos de mercado.
Mercado por Embalagem
O preço do produto é reduzido em mais de 25% dependendo do tipo de embalagem. As garrafas de vidro com um volume de 600 mL sao usadas em média quatro vezes ao ano. O Brasil tem hoje a maior quantidade de garrafas retornáveis do mundo - mais de cinco milhões de unidades em circulação no mercado.
O Brasil é líder em reciclagem de latas de alumínio para bebidas entre os países onde a atividade não é uma obrigaçao legal - 96% das latas foram recicladas em 2007 (Japao 86% e EUA 51%). Fonte: Associaçao Brasileira de Alumínio (ABAL).
Mercados por Ponto de Venda
Pode-se observar que 35% das vendas correspondem ao auto-serviço, isto é, supermercados e lojas de conveniência, 50% compreende o mercado frio - bares e restaurantes - e finalmente, 15% o mercado tradicional - padarias, mini mercados e mercearias. No Brasil há uma forte cultura de consumo de cerveja principalmente em bares. Entretanto, o mercado informal deve ser considerado, correspondendo à aproximadamente 5% (dos 35%) em comercialização das vendas de supermercados.
Perspectivas e Riscos
As projeções de mercado são sempre jogos de risco. É muito cedo avaliar o nível de acerto das previsões relacionadas ao BRIC. Mercados emergentes são naturalmente instáveis. Entretanto, ninguém sabe dizer se o crescimento demonstrado pelo Brasil, Rússia, Índia e China será sustentado ou não, afinal há muitos problemas econômicos, sociais e políticos a serem resolvidos.
O Brasil é considerado uma entidade desconhecida por analistas econômicos, particularmente em relaçao à habilidade em gerar pesadas políticas fiscais e a imensa burocracia que prejudica consideravelmente o ambiente de negócios. Outros problemas importantes a serem enfrentados sao restrições legais (álcool e saúde), altos valores de investimento em publicidade, comercialização com sistemas de distribuição eficiente e preços competitivos.
Finalmente não se pode esquecer a questão chave - haverá mais fusões na América Latina? Provavelmente. Não será necessário mais que alguns anos para que a pergunta seja respondida. Sem dúvida, não é possível ignorar o fenômeno BRIC, quando consideramos que estamos na crista da revoluçao - a democratização comercial.